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afonsonunes

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Quem já não aguenta mais sou, mas por ouvir há tanto tempo esta treta de que o país já não aguenta mais isto, nem mais aquilo. Porque o país aguenta tudo o que os governantes lhe puserem em cima, bem como tudo o que os partidos da oposição lhe meterem por baixo. Uma coisa é o país indestrutível, outra bem diferente são os cidadãos massacrados por violência verbal.

 

Esta coisa de dizer que o país já não aguenta mais, já vem de longe e a verdade é que todos os dias é chamado a aguentar mais um bocado. Portanto está na hora do Tó-zé mudar de disco, que esse já começa a ter ares de cassete. Há tanta coisa real e verdadeira para dizer, que se torna um desperdício de saliva, a repetição no tempo, da oratória que de concreto nada diz.

 

O país ainda aguenta e não se queixa, mas eu já não aguento mais ouvir o Tó-zé fazer uma ginástica danada para fugir entre os pingos da chuva, pensando que assim não se molha. Quando se está contra, é mesmo contra, não é dizer que se não concorda e fazer o frete de ir na conversa dos outros. O que é muito difícil de aguentar são todos aqueles que falam, falam e não dizem mesmo nada.

 

Mesmo quando podiam, como na caso do Tó-zé, pegar nas pontas dos rastilhos que todos os dias lhes põem debaixo dos pés e fazem de conta que não veem nada. Ao menos ele podia pegar no isqueiro, ou na caixa de fósforos, e ficar a olhar para as faíscas até ouvir um estrondo na ponta do outro lado. Porque eu não aguento mais ver um anjinho tão puro, ouvir tanta demoníaca oratória sem sequer se benzer.

 

Mas o país aguenta, e vai continuar a aguentar, as milagrosas esperanças dos governantes que me fazem lembrar as esperanças dos gloriosos selecionados para o euro futebol, e de todo o rol dos seus atentos e tranquilos responsáveis, bem como todos os seus úteis acompanhantes. Claro que o país aguenta com aqueles e com estes, porque os maus resultados não têm qualquer influência no país que os sustenta.

 

Mas eu já não aguento tanta festa futebolística antes de tempo, mobilizando recursos humanos e materiais em dias de descanso semanal. Penso que será para lá de uns dinheirões o custo de tudo isso. Só me consola o facto de ver com algum alívio como as televisões desopilam as programações daquelas tensões chatas de tanto bater sempre na mesma tecla durante semanas a fio. Mas o país aguenta.

 

Se o Tó-zé estiver atento ao que eu digo, o que não me parece, podia entrar nesses festejos para mostrar ao governo que faz força por Portugal. Ou, como o governo gasta mas não fala, o Tó-zé podia criticar o responsável pelo desporto, porque não entra nas festividades, nem mandou ninguém que, posteriormente, lhe mandasse um clip ou uma mensagem a pô-lo ao corrente do negócio.

 

A seleção do melhor do mundo e companhia já entrou na rotina do país. Mas a mensagem é clara. O país não tem defesa mas vai arranjá-la a tempo de evitar a próxima derrota. O país tem um grande ataque mas é ineficaz nos momentos decisivos. Com todas estas premissas o Tó-zé tinha obrigação de já ter aprendido alguma coisa. Por exemplo, quando é para atacar é a sério e quando é para defender não é a brincar.

 

Isto prova que o Tó-zé não está habilitado a gerir a pasta do futebol. E o país aguenta isso como uma inevitabilidade da falta de competitividade partidária. Como tal, também não está habilitado a gerir os negócios das TV’s. Obviamente que, a ser assim, também não está habilitado a andar à procura de emprego onde só há desemprego, com perspetivas de agravamento com as crises, desportiva e televisiva.

 

Portanto, Tó-zé, não ande por aí a dizer dia sim, dia não, que o país não aguenta mais. Se reparar bem, o país até vai aguentar derrotas no euro futebol e derrotas na televisão. Aliás, o país está agora bem preparado para todas as derrotas possíveis e imaginárias. E isso não é negativo, como qualquer idiota percebe. País prevenido vale por dois. E homem prevenido também, Tó-zé.