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afonsonunes

afonsonunes

07 Jun, 2012

Os nossos abismos

 

Há um ano estávamos à beira de um abismo que, milagrosamente, se afastou de nós, precisamente no momento em que um dos nossos pés de apoio ia entrar no vazio. Dizem alguns que foi por obra e graça de um empurrão traiçoeiro. Também foi, certamente, por obra e graça de alguém, que hoje, muitos portugueses, já bateram no fundo do abismo em que, entretanto, caíram.

 

Esta conversa do abismo de que fugimos e do abismo em que acabamos por cair, ainda tem muitos pontos negros que um dia serão esclarecidos por alguém que consiga ver para lá das muitas nebulosas que toldam os ares deste país, em que as mentiras de conveniência escondem muitas verdades proibidas. Mas há uma coisa chamada tempo que, como o mar, acaba por deitar fora tudo o que não presta.

 

Há quem pense que o país está submerso pela ambição dos muitos e poderosos invejosos que põem toda a sua ganância ao serviço de guerras de destruição de quem tente barrar-lhes o caminho. Para além desses, são facilmente detetáveis os rancorosos, para não lhes chamar raivosos, que sustentam ódios de estimação de tal forma entranhados, que não veem nada à sua volta que não seja os seus alvos.

 

Já lá vai o tempo em que muito se clamava por verdade. Já lá vai o tempo em que a nossa crise era apenas e exclusivamente nossa e, concretamente, da responsabilidade de uma única pessoa, embora ainda haja quem advogue essa teoria. Hoje também se grita por verdade, mas ela mudou de lado, tal como mudou o lado da responsabilidade que, também agora, se pode dizer que tem um único responsável.

 

Também há quem sustente agora a legitimidade do voto, para contrariar a crescente onda de quem não reconhece já essa legitimidade, a quem detém o poder. Esquecem esses que agora querem legislatura completa, que foram os mesmos que forçaram a interrupção da legislatura anterior e conquistaram o poder com os mesmos argumentos acusatórios contra o governo anterior.

 

É muito fácil e cómodo julgar hoje factos e acontecimentos que ocorreram em circunstâncias completamente distintas das atuais. É fácil e cómodo criticar as consequências de uma catástrofe depois de ela ter ocorrido. Mesmo quando ela era anunciada, mas com o objetivo bem à vista de conseguir o poder, prometendo melhorá-lo. Obtivemos agora a prova de que só o têm piorado.

 

Será talvez a melhor prova de que, aqueles que tantos cataclismos previram, não faziam a menor ideia do que diziam e, muito menos, do que deviam fazer, quando chegassem ao poder, para os minorar. Ser bom aluno, não basta. Os anteriores também o foram. Cumprir ordens, bem ou mal dadas, não é nenhuma novidade. Os anteriores também as cumpriram e teriam de as cumprir se não tivessem sido substituídos.    

 

A principal trabalheira dos atuais governantes tem assentado na preocupação obsessiva da destruição do que de bom herdaram. Tem sido a preocupação de fazer crer, através de queixas na justiça, de que o vasculhar obsessivo a que têm dedicado o seu tempo, só resulta em crimes desde logo adiantados, sem esperar pelos resultados das investigações, pressionando-as à partida.

 

Será bom que não esqueçam que podem estar a acumular muita matéria que pode vir a ser objeto das mesmas dúvidas e das mesmas investigações, quando cederem o poder a quem lhes suceder. A menos que julguem que o seu reinado não terá fim. Terá, como todos os outros tiveram. E, mais depressa do que se pensa, quando o rei vai nu e os cortesãos cobertos de ouro. 

 

Fugir de um abismo de olhos fechados e não falar dos muitos outros abismos que nos cercam, é estar a ignorar a queda já verificada no primeiro precipício do percurso. E este percurso está verdadeiramente perigoso para se andar de venda nos olhos, apregoando segurança e comodidade, em confronto com outros percursos já bem nossos conhecidos de há décadas, com muita gente a cuspir para trás.