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afonsonunes

afonsonunes

13 Jun, 2012

Pobre computador

 

O meu computador é pobre na medida em que tudo o que lhe peço para guardar é uma miséria. Assim sendo, bem podia dizer que ele é miserável. Não, não vou por aí, não só porque não é verdade, mas por comparação com outros de que tenho ouvido falar. O meu é bem comportado, pois respeita toda a gente, até os jogadores da seleção, enquanto outros recebem e guardam trabalhos pouco limpos.

 

Até já ouvi dizer que há computadores a deitar as tripas para fora com tanta tralha que os obrigam a guardar. E estes, sim, são mesmo pobres computadores, que têm de levar uma vida cansativa, cheia de stress e de insultos que lhe caem em cima, vindos de todos os lados. Porque os seus utilizadores julgam que aquilo é o armazém dos papéis cujo conteúdo lhe introduzem na memória já mais que esgotada.

 

Depois, nem sequer lhe dão um comprimido para a refrescar, como fazem as pessoas. Atafulham até ele, o computador, se apagar por perda total de energia. O resultado é, logicamente, uma paragem na atividade do seu utilizador que, coitado, esfalfado de tanto trabalho, deixa cair os braços e até fecha os olhos húmidos, passando pelas brasas durante largas horas por dia.   

 

Para estes felizes utilizadores o pobre computador é o elo mais fraco, pois além de velho e cansado, serve de desculpa para o seu utilizador levar uma vida regalada. Como o computador não aguenta, o utilizador descansa. E assim, depois de encher o computador de tralha durante anos a fio, fica impossibilitado de meter nele os dados indispensáveis ao normal desempenho da sua atividade.

 

Mas, o melhor da festa vem a seguir. O utilizador do pobre computador jamais recebe trabalhos urgentes, limitando-se àqueles trabalhos de lana-caprina em que a sua própria memória lá vai dando para encanar a perna à rã. Por outro lado, permite-se que os trabalhos sejam selecionados conforme as conveniências. Avançam uns para o pobre computador, enquanto outros seguem para computadores mais rápidos.

 

Dão-se alvíssaras a quem for capaz de adivinhar onde é que isto se passa. Devo esclarecer, para que se não criem dúvidas sempre perniciosas, que tal se não passa com quem anda atrás dos meliantes que já não têm espaço na memória de quase todos os pobres computadores. Porque esses, como já estão todos, ou quase todos referenciados, não precisam de computadores para bloquear o sistema.

 

Admito que é muito mais provável que aconteça anomalias dessas, no grande problema das reformas. Pelo simples motivo de que elas estão constantemente a baixar, tal como baixam os sujeitos que o sistema inclui. Isso permite que os pobres computadores também se vão reformando. E levam com eles os reformados que, com tantas e gordas reformas, desmemoriaram os pobres computadores.

 

Agora imagine-se que isto se passava nos computadores de serviço das investigações criminais. Os grandes reformados nunca entravam na memória dos rápidos computadores, pela simples razão de que em poucos segundos ficavam mais lentos que aquele ministro que se diz que parece mesmo pasmado. Mas, que fique bem claro. Na justiça não há nada nem ninguém pasmado, ou lento. Nem tão pouco que seja pobre.

 

Já se não pode dizer o mesmo de tudo o que está a precisar de reforma urgente. Por exemplo, todos os réus que vão acabar por morrer com o peso na consciência de não terem sido julgados e absolvidos. Talvez com receio de que, lá em cima, os computadores sejam menos lentos, ou que o S. Pedro, chaveiro de profissão, lhes abra a porta gradeada que, cá em baixo, esteve sempre fechada para eles.

 

É inegável que os computadores têm as suas birras. Tudo porque alguém se lembrou de lhes meter na memória aquela estúpida ideia de que tinham de imitar a memória dos humanos. Ora, quem assim lhes adulterou a imparcialidade, esqueceu-se de o fazer pondo de lado a sua própria parcialidade. Talvez esteja na hora de baixar à reforma os homens e os computadores lentos e de má memória.