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afonsonunes

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O Parque já engoliu todas as barbaridades de oratória que atafulharam o vasto recinto, quase secando os lagos, os repuxos e os loureiros, todos corados de vergonha pelos piropos de saudosos do tempo de volta atrás, durante e após as obras do Pólis. A velha e poeirenta Devesa já se transformou nas Docas ruidosas, onde a juventude se rebola na relva e onde os adultos enterraram de vez, os hábitos da pacata e tradicional vida semi-aldeã. A cidade está um estaleiro geral, tal a revolução em curso, nas ruas, nos largos, nas avenidas, visando todas as infra-estruturas e a modernização do seu aspecto e funcionalidade.

 Ainda se ouvem alguns “queixinhas” porque as obras provocam pó e lama que os incomodam, principalmente, àqueles que nunca se incomodaram com o imobilismo em que a cidade estava mergulhada há muitos anos, perdendo visivelmente em confronto com outras cidades da sua dimensão. Mas, à medida que as obras vão ficando concluídas, os olhares conformados vão calando essas vozes, ficando as mágoas abafadas dentro dos peitos inchados e arfantes.
A cidade “hard” acordou finalmente para o progresso, mas uma pequena parte da cidade “soft” ainda dorme a sono solto, e reflecte bem a distância, tanto em quilómetros, como em anos, que nos faz levantar muitas dúvidas em relação ao que nos podia distanciar de outros meios em termos de mentalidades mais abertas, mais independentes e menos preconceituosas.
Há pequenos pormenores da vivência em sociedade que constituem grandes barreiras para que todos se sintam num ambiente de iguais oportunidades, em que não prevaleçam favores, simpatias, amizades, ou outras, em que as leis e o bom senso não sejam ignorados ou, simplesmente, atirados para trás das costas.
Ainda há alguns antigos “sargentos lateiros” neste moderno quartel que é a cidade do progresso. Ainda há arautos virulentos que têm espaço para se manifestar, sempre protegidos pelo abafar das críticas de quem lhes queira responder. Ainda há quem prometa zelar pelo cumprimento de leis, que depois só servem para atingir quem lhes seja desconhecido.
Mas, com o tempo e com os destemperos que exibem, mesmo publicamente, vão acabar por ser acordados da sua longa soneira, pois o tempo não anda para trás e a subserviência vai caindo em desuso. Aliás, o mesmo acontecerá a quem lhes continua a dar cobertura.