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afonsonunes

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15 Jun, 2012

Guerra de laranjas

 

Somos agora um país de laranjas que têm provocado muitos amargos de boca à grande maioria dos seus cidadãos. País que tudo está a fazer para se aguentar nas canetas, tendo como lenitivo o prazer de se consolar com a vida apetitosa da minoria, que consegue arranjar açúcar suficiente para quebrar essa acidez própria de citrinos ainda em fase de amadurecimento.

 

É uma guerra pacífica, para lá de uma ou outra batalha verbal mais sumarenta, entre os mais ácidos e os mais adocicados, sempre pela disputa do precioso açúcar que, custando cada vez mais os olhos da cara, conforta as línguas e ameniza as exaltações. Não há nada como uma boca doce para superar a intranquilidade que qualquer guerra suscita.

 

Num país de sol e temperatura amena, nunca devia ser preciso o caro e pouco saudável açúcar da mercearia. As nossas laranjas têm todas as condições para ser doces naturalmente, e assim evitar guerras em disputas estéreis, muitas vezes originadas pela sua colheita prematura, em lugar de as deixar amadurecer, para serem utilizadas decorrido o tempo de maturação.

 

Também é verdade que muitas laranjas, incompreensivelmente, apodrecem em cima da laranjeira ou debaixo da própria árvore, contaminando os solos. Somos um país de contradições. Consumimos laranjas verdes, ácidas, e ao mesmo tempo deixamos que as podres nos envenenem o ambiente. Como seria fácil resolver este problema. Deixando amadurecer as verdes e colhendo as maduras antes de caírem de podres.

 

Mas este laranjal à beira mar plantado, está confrontado com uma guerra que está a deixar o país nervoso e os seus guerreiros de estimação à beira de um ataque de intranquilidade. Tudo porque no próximo domingo, terão de se defrontar com a poderosa laranja mecânica. Nunca será fácil a qualquer laranja humana, irritável ou calmíssima, sair vencedora sobre uma máquina feita laranja.

 

Mesmo tendo em consideração que essa laranja mecânica teve umas avarias recentes que lhe diminuíram momentaneamente a eficácia, os nossos doces citrinos deixam perceber que se encontram na espectativa do que lhes vai acontecer. Pois, após as reparações, as máquinas precisam de uma rodagem para se olearem devidamente, após o que aparecerão a funcionar como novas.

 

Resta saber se antes ou depois de domingo, facto que tem provocado aquelas ansiedades, que não são mais que o despejo de azias provocadas por acidez, em estômagos mais sensíveis. Tanto no seio dos valorosos guerreiros lusos, como também nos seus intranquilos seguidores, ou ainda em alguns casos mais doentios. São chateamentos e amuos que, nada de digno, acrescentam a esta guerra de laranjas.

 

De concreto, apenas a certeza de que alguém vai escorregar numa casca de laranja, fazendo com que haja um regresso prematuro a casa de um, ou dos dois contendores laranjas. Esperamos que o humano laranja, com o seu poder de improvisação e trapalhice, consiga desorientar a rigidez da perfeição mecânica, descontrolando algum parafuso que ainda tenha ficado mal apertado.

 

Para tal é preciso que o nosso laranjal não se distraia e amoleça, a pensar que o marcar passo de rotina dos nossos guerreiros vai fazer sentar a máquina no relvado. Máquina que costuma ser o corta relvas, mas desta vez é uma laranja mecânica que tem já dentro de si, muitas das tecnologias em que agora se pensa para o futuro. Porque o futuro é já hoje e no domingo podemos voltar ao passado.

 

Porém, ainda há tempo para espantar chatices e derrubar amuos, se cada laranja lusitana conseguir fugir do corta relvas que, inesperadamente, pode entrar no relvado e começar a levantar fantasmas a que nos vamos habituando nesta ocidental praia das laranjas. Haja a esperança de que, no domingo, toda a nossa avermelhada laranja supere a onda mecânica alaranjada.