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afonsonunes

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17 Jun, 2012

A sopeirra do hemi

 

Todos os portugueses deviam ver tudo à lupa no que respeita a toda a gente que não lhe agrade, mesmo que isso represente uma certa tendência para a bisbilhotice do sopeirame nacional. Até aqui temos assistido ao exemplar desempenho dessa tendência por parte do maior partido governamental. Andam todos de lupa em punho e, muitos deles, com um funil na outra mão.

 

Li agora que viram à lupa os juízes propostos pelos adversários para as vagas do Tribunal Constitucional. O que me espanta nesta notícia é o facto de os socialistas não terem feito o mesmo, quanto aos juízes do lado oposto. A menos que a notícia seja mais um espanto informativo, entre os muitos que nos chegam diariamente, embora acredite que todos, sem exceção, fizeram o mesmo.

 

E não andaram uma semana, mas durante os muitos meses que já dura essa novela, do gosto desse, não gosto daquele. Claro que isto só pode ser um dos muitos episódios que se assemelham em tudo às tradicionais conversas de sopeiras nas idas e vindas para os locais de trabalho. E essas conversas têm, logicamente, como protagonistas, as senhoras e os senhores seus patrões.

 

Esta sopeiral introdução vem a propósito de muito do que se passa no chamado hemiciclo onde, com os patrões presentes ou ausentes, ouvimos os discursos das, e dos serviçais, com aquela exaltação de quem serve cegamente, incondicionalmente, sempre através das mesmas palavras de repetição de ladainhas que já enjoam e que em nada limpam a imagem em que o país os tem.   

 

Mas, também vemos as caras de sopeiros que eles nos mostram, sempre que as câmaras os aproximam o suficiente para os observarmos através dessas lupas objetivas que nos colocam frente a frente com eles. De entre esses, é fácil identificarmos aqueles que mais se distinguem nesse mundo em que até podemos, sem esforço, chegar à conclusão de quem merece o título de sopeira do hemi.

 

E muito mais depressa concluímos isso, quando o patrão está ali, no preciso momento em que fala, nos momentos em que repete aquilo que o sopeiro já tinha repetido, e que é aquilo que o patrão já dissera mil vezes. Mas aquela cara de sopeiral enlevo com que escuta o que já sabe de cor, o entusiasmo com que aplaude essas palavras que, cada vez mais, lhe soam bem ao ouvido, é um momento de boca aberta.

 

Essa é a verdadeira cara do sopeiro do hemi que, em boa verdade, representa na perfeição, a expressão facial da sopeira-mor daquela casa senhorial. Porque é ela que pode olhar de cima para baixo para todas as sopeiras menores que não atinam com o melhor processo de contrariar os avanços e recuos daquela que tão depressa humilha, como logo a seguir se vê na necessidade de se amaciar.

 

O sopeirame é assim. Obviamente que me refiro a este sopeirame, pois nem por sombras poderia estar a referir-me às qualificadas empregadas técnicas de cozinha e limpezas que, de algum modo, já tiveram designação semelhante ao fenómeno sopeiral. Mas isso já foi há tanto tempo que ninguém, nem eu próprio, ousaria colocar esses quadros de apoio a um nível tão baixo.

 

De baixo, mas mesmo muito baixo, é o nível em que vejo o anafado sopeiro do hemi que, por acaso, até trata os seus adversários, mas colegas de trabalho, como o pessoal menor que ele julga comandar, naquela cozinha onde tudo se condimenta e onde tudo se prepara com belos e decorados aventais de sopeiras. Mas, antes de meter os preparados no forno, têm de passar pela lei de funil da sopeira-mor.   

 

Que tem uma postura muito peculiar no desempenho das suas destemperadas funções. Por entre as normais vociferações de ódio, de vasculho e de acusações, quando a necessidade a isso obriga, lá arranja uns incómodos apelos à união que, como orgulhosamente diz, são do interesse nacional. Cá para mim, a sopeira anda a destemperar, em lugar de temperar, o encalado ambiente do hemi e do país.