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afonsonunes

afonsonunes

20 Jun, 2012

Mais um?

 

Quem diria que em tão pouco tempo, um a um, grandes senhores do poder africano viriam a ter o fim que uns já tiveram e outros estão irremediavelmente na lista de espera para lhes seguir o exemplo. Os tempos não estão nada fáceis para quem abusou do poder de destroçar a vida de muitos milhões de seres humanos, só porque julgavam que tudo lhes pertencia.

 

Na verdade, tudo lhes pertenceu até ao momento em que a consciência dos candidatos a vítimas concluiu que, morrer por morrer, mais valia morrer com dignidade, tentando ao menos que os sobreviventes desse morticínio, viessem a usufruir de um futuro construído para si próprios e nunca mais para os ditadores que de tudo privavam quem apenas podia viver para lhes satisfazer luxúrias e vícios de deuses terrenos.

 

Parece que ainda há quem julgue que, assim é que estava bem, e resista à obrigação de dar o direito de libertação aos povos condenados à miséria, defendendo os usurpadores do poder. E não são apenas os que faziam parte dessa corte de privilegiados que viviam à sombra das ditaduras. São também aqueles que entendem que as turbulências nunca favorecem ninguém.

 

Vamos assistindo a tantas cambalhotas de quem detém o poder, que já nada nos surpreende. Mesmo quando o poder muda de rostos. Porque há países onde, como diz o povo, nem sequer mudam as moscas. E, à falta de melhores alternativas, até o povo que escolhe, se vê obrigado a aceitar sempre a mesma coisa, quer participe nessa aceitação, quer voltando-lhe as costas cada vez mais.

 

De vez em quando, lá vai mais um, aqui, não desta para melhor, como em África, por enquanto, mas para um dos muitos paraísos dourados que não faltam por aí. Tem sido assim por obra e graça de uma solidariedade fraternal que os une, para lá das guerras verbais a que assistimos diariamente nos meios de comunicação social, para português ver e ouvir.

 

No entanto, no que toca ao cerne do poder, nenhum dos habituais detentores abdica de o exercer em exclusivo, quando toca a sua vez. Porque essa coisa de partilhas sempre deu em grandes guerras familiares. E eles, os da área do poder, apenas querem ser primos em momentos de pequenos festins, pois nos grandes banquetes, tudo é pouco para os grandes comilões.

 

Aqui, o problema não se resolve com o lema de, lá vai mais um. Porque, um a um, sempre nos vão dizendo que, os que entram vão resolver tudo, bem e depressa, daquilo que os que saem deixaram mal alinhavado. Portanto, sair mais um ou menos um, nem adianta nem atrasa. Tinham mesmo de sair todos, um a um, até que tudo ficasse novo, sem ferrugens nem retoques de pinturas.

 

Como vamos copiando muito do que vemos lá fora, há indícios de que uma ou outra visão partilhada venha a quebrar a tradicional casmurrice do, ou governas tu, ou governo eu. Sim, porque ainda não há muito tempo, se ouvia, cá dentro e lá fora, juntos, nós, nunca, pois não havia nada, mas absolutamente nada, a partilhar. Nem a mais estreita visão, nem a mais larga indecisão.

 

Porém, a nossa fantasmagórica alma gémea dos Balcãs, já nos fez sinais de luzes para a seguirmos dentro do bom caminho que estamos a trilhar, ainda que venha a ficar pejado de cadáveres. Diferente, mas seguindo o conselho amigo do uso de visões partilhadas com os figadais inimigos internos. Afinal, lá terá de ir mais um a caminho da tão endeusada harmonia que as nossas amizades externas tanto valorizam.  

 

Será, com certeza, um doloroso engolir de sapo vivo. Mas quem manda, manda. Porque isto de parar com o, lá vai mais um, tem que se lhe diga. Mais vale continuar vivo e remar a dois, que ver o barco ir ao fundo com mais um. É que assim, haverá sempre a consolação de que lá vão mais dois. E a mim, resta-me a esperança de que, um a um, ou um de cada vez, se acabe com esta rotina do, enquanto tu vais, fico eu.