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afonsonunes

afonsonunes

22 Jun, 2012

Haja saúde

 

Costuma dizer o nosso entendido povo que, no meio de tanta desgraça apregoada por esse mundo fora, ao menos que haja saúde, para que se possa também dizer que quem canta seus males espanta. E, já agora, que o forno não deixe de coser o pão que nos mantém vivos e a mexer todos os dedinhos quando saímos da cama todas as manhãs.

 

Quem tiver a felicidade de acumular tudo isto, bem pode dizer que a vida está má mas, pode ter a certeza, ela estará muito pior para muita outra gente. Eu imagino o sofrimento de um ministro que até tem estado muito quieto e calado nos últimos tempos mas agora, por dever de ofício, teve de fazer o sacrifício de fazer uma longa viagem para obrigar a ganhar um jogo de futebol.

 

Foi o que nos valeu para que o pessimismo não matasse muitas e fundadas esperanças de sobrevivência, quando tantos portugueses já se viam a cair para o lado, em frente do televisor, atingidos por um daqueles xeliques, que não perdoam. Em vez disso, e graças às veementes ordens do nosso ministro, houve festa de arromba em toda a extensão deste nosso relvado nacional.

 

Também não seria de esperar outra coisa de um ministro que sempre soube fazer uma eficaz gestão do seu tempo e do seu trabalho. Mas, à cautela, lá convenceu o papa do país a acompanhá-lo, não fosse o ministro confundido, lá fora, como um representante de satanás. Assim, o poder da obra, junto com o poder da palavra, traduzida em fervorosas orações, era simplesmente infalível.

 

E foi assim que aconteceu a verdade do saudável, haja saúde, que até nos prolongou a vida numa competição que alguns já consideravam uma morte certa. Já tenho ouvido dizer que não há nada mais eficaz para que uma pessoa viva até mais não, que haver alguém que lhe deseje a morte. Claro que, quem tem desejos desses, mais vale ir pensando em morrer primeiro.

 

Também me apetece dizer, haja saúde, para ver o que aí vem em termos de justiça, a tal que as bocas do mundo não deixam de proclamar que não existe. Cá para mim, deu agora uns leves, levíssimos, bafos de vida, ao serem anunciadas algumas medidas que, boas para uns, más para outros, como de costume, são indícios de que, afinal, já há mesmo medidas, em lugar de apenas palavras.

 

Gostava de ir tendo saúde para ver quando é que as medidas são mesmo tiradas a todos por igual, isto é, quando é que os julgados e condenados vão mesmo para o lugar que merecem, com o fatinho às riscas de circunstância, ao mesmo tempo que os julgados pelos pela populaça, com a ajuda populista de quem tem alguma influência para ditar sentenças, armados em juízos de guerra, sejam absolvidos de vez.

 

Para isso, haja saúde para ver que, todos aqueles que contribuírem para estas guerras, sejam chamados a provar o que dizem ou escrevem, para que a justiça possa atuar, caso ainda o não tenha feito. Neste caso, seriam bem-vindos como juízos de paz, pois todos seremos poucos para a promover. Caso contrário, os juízos de guerra deviam ser devidamente julgados como criminosos na medida do crime cometido.

 

Em matéria de crimes agora muito em voga, gostava de ver esclarecida esta situação bizarra de quem está sempre a considerar-se isento, responsável e de consciência tranquila mas, perante acusações concretas de, no mínimo, falta de lisura política, se recusa terminantemente a prestar esclarecimentos nos locais onde tem a obrigação, que mais não seja moral, de o fazer.

 

Por outro lado, peço muita saúde para ver bem esclarecida a diferença entre o dever de informar e o perigo de se meter o nariz onde se não é chamado, com a agravante de ir assoar-se onde a falta de higiene põe em risco a saúde de terceiros. É que, com a saúde alheia não se deve brincar. Caso contrário, é natural que os atingidos também reclamem o direito de contaminar os contagiosos. Para que haja saúde.    

 

 

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