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afonsonunes

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É natural que com um aninho de idade se fale pouco e se acerte ainda menos, mas isso não quer dizer que tenha de ser sempre assim. Há aqueles casos de superdotados que se revelam logo à nascença, e há outros casos de precocidade que nos deixam boquiabertos com as suas demonstrações de inteligência e de habilidades muito para lá do que é comum.

 

Também há casos de sucesso nessa tenra idade em que se manifesta desde logo um sentido surpreendente de tendência para a maldadezinha escondida sob a capa de um angélico sorriso e de um ar de quem acaba de concluir uma obra-prima de bem-fazer, para todos aqueles que os apaparicam a todo o momento, fazendo jus a que as maldadezinhas, cada vez maiores, sejam também cada vez mais escondidas.

 

Mas, também cada vez ficam mais enganosas pois, de dia para dia, aumenta o engenho de as pensar e aguça a arte de as executar. Sempre sem perder o instinto de delas beneficiar. Decorrido um aninho de vida, a matreirice é já um forte sintoma de que alguém cresce com os olhos postos no seu futuro, sempre construído com referências ao passado, à medida que ele vai sendo desennterrado.

 

A verdade é que, para a idade que tem, já fala de mais. Talvez por isso, se torne necessário mudar-lhe constantemente a fraldinha, pois quem muito fala, dizem, muito de incómodo acabará por deitar fora, correndo o risco de ser atingido por alguma desidratação, se não meter água com a frequência devida. Mas isto acaba por ser um ciclo vicioso. Quanto mais água meter, mais diarreia terá de deitar fora.

 

É natural que quem tem apenas um aninho de vida ainda não tenha bem a noção da diferença entre a verdade e a mentira, e entre por aquele labirinto que se situa na fronteira entre as duas. Assim, lá vai metendo uma palavrinha de verdade por entre duas palavrinhas de mentira. Para quem é tão novinho, custa a acreditar que faça isso conscientemente, mas a verdade é que o faz.

 

A menos que estejamos perante o tal caso de precocidade intelectual, em que uma criancinha tão nova, já consegue ver para além do que veem muitos adultos, chegando mesmo a dizer deles, o que um mestre não diria aos seus aprendizes. Mais, consegue, com toda a facilidade, convencer um país inteiro de que todos estão com ele, apesar dos seus olhinhos, ainda em estado de semicerrados, verem muitas sombras.  

 

Mas, custa a acreditar que se comece tão precocemente a divisar por entre as brumas da memória, as virtudes de poder vir a viver calmamente num futuro em que as sombras predominam sobre a claridade. Principalmente, fazendo crer que as sombras são imaginárias, substituindo-as por uns raios de sol pretensamente quentes, que não aquecem sequer os pés dos mais intranquilos.

 

Com um aninho apenas, são muitas as lições que nos são dadas por quem ainda nem sequer tem idade para ir à escola. Mas pretende convencer os professores de que está já em condições de lhes ensinar como devem mostrar as suas capacidades e exercer a sua pedagogia. Sobretudo, para que não vivam permanentemente angustiados, quando a vida, agora, só lhes dá motivos para sorrir.

 

Talvez até, em muitos casos, motivos para rir abertamente, não com aquele encanto do riso de quem tem apenas um aninho de idade, mas com aquelas gargalhadas que fazem vir as lágrimas aos olhos. Os alunos não são todos tão bons como as criancinhas que olham enlevadas para os pequenos e grandes gestos dos seus educadores ou professores de outras origens mais convincentes que as nossas.

 

É evidente que a nós, medíocres mas muito elogiados sofredores, só nos resta aprender o que eles nos ensinam e, acima de tudo, não armarmos em espertos, demonstrando que a nossa esperteza é, apenas e só, uma das muitas espécies de esperteza saloia que não tem cabimento neste nosso mundo tão sabido. Por isso, resta-nos desejar-lhe um, entre muitos outros, aniversário feliz.