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afonsonunes

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26 Jun, 2012

Comadre Mariana

 

Alguém me garantiu que já desde os tempos do fado a sério, a comadre Mariana é que sabia, sem margem para dúvidas, quem é que estava melhor e quem é que estava pior. Até me garantiram que o mesmo acontecia quanto à gravidade dos males dos nossos compadres que, segundo o diagnóstico da comadre, não eram tão graves que os fizessem estar pior.

 

Sinceramente, digo eu, que isto de estar melhor ou pior tem dado muito que pensar. Ainda agora não sei se, por pura coincidência, os dois mais na berra de entre os nossos compadres muito conceituados em pensamentos positivos, se aventuraram a fazer, cada um, o seu diagnóstico sobre isto, e cada um também, com a jeitosa duração televisiva de vinte minutos.

 

Foram portanto quarenta minutos de diagnósticos que pareceram tirados a papel químico. Coisa que já nem se usa nos tempos que correm. Mas, para além da sintonia pessoal, há que reforçar a confiança que nos merece dois trabalhos de análise que sempre valem mais que um só. Quarenta minutos de tempos de antenas é obra que muito valoriza quem os aproveitou para se instruir.

 

No meu modesto entender, só foi pena não ter havido um intervalo entre os dois diagnósticos. Até porque assim, os diagnosticadores tiverem de esperar pelo fim dos quarenta minutos para se felicitarem mutuamente pelo sucesso, e os telespetadores não tiveram oportunidade para, com aplausos separados, elegerem o diagnóstico com mais e melhor entoação de voz.

 

Com todas estas dúvidas, diga-me lá, comadre Mariana, se realmente isto está melhor ou pior. Pode mesmo dizer se o mal era, ou é mais forte agora, e se o doente está melhor ou pior. É que não consigo entender as vozes contraditórias, todas elas abalizadas, certamente, mas eu só consigo entender que há mal por todo o lado e espalhado ao longo de longo e longo tempo.

 

Mas o que falta é a medida. E medidas deste teor, confesso, já só acredito na que me for fornecida pela comadre Mariana. Porque ninguém como ela conhece os seus e os nossos compadres. Se eles ainda conseguem abrir os olhos, ou se somos nós que andamos com eles fechados e não conseguimos ver tudo aquilo que eles, os dois, nos dizem que já fizeram.

 

Minha rica comadre Mariana, já agora, debruce-se lá sobre dois diagnósticos distintos. O diagnóstico sobre o passado e o diagnóstico sobre o futuro. Mas, por favor, não faça como os nossos compadres. Não meta os pés pelas mãos, confundindo o que lá vai, com o que lá vem. É muito importante, comadre Mariana, que eu fique a saber se devo chorar sobre o primeiro, ou rir sobre o segundo.

 

Pois, eu sei que pode acontecer que tenha de fazer a mesma coisa sobre os dois. Nesse caso, já ficaria satisfeito, relativamente, claro, sobre qual deles o faria com mais vontade, ou com mais relutância. Do que é que eu pergunto? Tanto faz. Do passado e do futuro, ou dos dois prognosticadores. Eu não sou muito esquisito. O que eu quero mesmo, é saber da comadre Mariana o que é que devo pensar.

 

Se estes dois valem agora, mais ou menos do que valia um só, há um ano atrás. Claro, é óbvio que, normalmente, dois sempre valeram mais que um. Em termos de disparates, como a comadre sabe, dois valem apenas metade de um só. Porém, em termos de passado e futuro, a gente ainda podia desopilar o fígado à vontade, enquanto agora, não podemos sequer pensar em fazer guerra uns aos outros.

 

Pois é comadre Mariana, eu sei que vai ter de pensar um bocadinho, apesar da sua argúcia e rapidez de raciocínio. Mas também sei que não cometerá a deslealdade de, não guerreando ninguém, abra uma guerra com a sua consciência livre e independente. É que, não há nada mais saudável, que dar luta a quem não deixa de nos guerrear permanentemente. Obrigado comadre Mariana.