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afonsonunes

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Não há bons enchidos sem bons porcos. Esta é uma verdade que nem qualquer entidade desregulada consegue subverter, nem qualquer deputado artolas, por mais sagaz que se julgue, é capaz de contrariar. E quanto a bons porcos, não é só nos montados alentejanos que os vemos nascer, crescer e ser desmanchados, para nos dar tudo o que consta nos catálogos da especialidade.

 

Obviamente que não se pode dizer que temos bons porcos se não tiverem cumprido um bom plano de engorda, não apenas com boa bolota, mas com todas as técnicas dos melhores chefes da especialidade. Só assim, poderemos ter as gorduras de suínos bem enchidos, gorduras que vulgarmente se designam de ‘tócinhos’, fundamentais para o paladar de qualquer enchido de qualidade.

 

Há quem fale muito nas gorduras do estado suíno, exigindo a sua eliminação. Esquece-se que não se pode fazer uma simples farinheira sem uma elevada percentagem de gordura. Do mesmo modo que não se pode apresentar uma morcela confecionada apenas com o sangue cozido do porco. Ou um chouriço que resulte do encher da tripa com febras e colorau. Em tudo tem de entrar uma dose maior ou menor de gordura.

 

É que o bucho das pessoas não é como o bucho de porco, onde se mete o que se quiser. O bucho humano tem aquele dom de saber o que é bom, mesmo que tenha gorduras a mais. E nem sempre quem as tem, as quer perder. Esta tendência para a gordura de porco, é uma tendência que começa a ser levada lá para fora, com a vantagem de ficar menos gordura entre nós.

 

Imagine-se o desvario que vai por aí. Há países que vêm cá buscar os nossos enchidos para os venderem lá fora, como se fossem deles. Ora isso quer dizer que o nosso chouriço é um espanto de apetência e de aparência, pois basta olhar para ele para fazer esquecer todos os chouriços dos locais. E isso, não tenho dúvidas nenhumas, deve-se às nossas gorduras de porcos muito anafados.

 

Já lá diziam os antigos, que não há nada como um bom ‘txóriço’ para consolo de quem o oferece e regalo de quem o recebe. Mas isso era dantes. Hoje temos embaixadores plenipotenciários à volta do mundo, à procura de colocar o seu precioso chouriço, por bom preço e com o respetivo rótulo de origem. E aí, na China ou no Bangladesh, se é bom, é mesmo chouriço de português legítimo.

 

Se já inundámos o mundo com os nossos pastéis de Belém, ou mesmo com os simples pastéis de nata, ou ainda de fofas cavacas portuguesas, ainda mais facilmente podemos inundar o mundo com tromba e cabeça de porco fumado, ou de pezinhos de coentrada do dito, para não se discriminarem apenas os enchidos ou os também célebres presuntos, símbolos de tantas cunhas bem-sucedidas.

 

Talvez passe por aqui a revitalização deste país deprimido. Mas, atenção. Não se pode levar por diante um plano tão audacioso sem ter-mos porcos a dar com um pau. Isto quer dizer que não podemos hostilizar os porcos que temos, senão serão eles a criar ondas de depressão e lá se vai o negócio salvador. Não se pense que se podem vender morcelas ou farinheiras sem a aurífera gordura dos nossos porcos.

 

Temos de ter porcos. Muitos porcos. Não só nos montados alentejanos, mas em todo o país. Não só nos campos e nas aldeias mas, e principalmente, nas cidades, em todas as cidades, das maiores às mais pequenas. Porcos menores nas aldeias, porcos tanto maiores, quanto maiores forem as cidades. É tudo uma questão de pias onde eles possam chafurdar. E, por enquanto, é coisa que não falta.

 

Muita atenção, também, aos nossos propagandistas da banha de porco. Aconselha-se a que não levem esse produto para a estranja porque, com as mudanças climáticas por que passam, derrete-se e fica rançosa. Um desperdício. É preferível que levem o enchido pronto a servir. Principalmente, aquela linguiça fininha, um petisco que não precisa de fogão para assar. Já o chouriço é próprio de refeição mais elaborada.