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afonsonunes

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08 Jul, 2012

Pavões à hora

 

O meu respeito por todos os pavões do governo não admite dúvidas, mesmo quando os vejo a correr de porta em porta, sem saberem por qual delas podem entrar, sem porem em risco a segurança de quem esteja por perto. É que os pavões machos andam sempre de cauda em leque e isso requer portas largas para que as vistosas penas não sofram alguma machucadela.

Já as pavoas até entram pela janela se a necessidade a isso as obrigar, mas fá-lo-ão sem qualquer dificuldade, dada a sua leveza de cabeça e ligeireza de asas. Ainda não consegui perceber a razão por que as pessoas gostam mais dos pavões que das pavoas. Deve ser por causa das cores do rabo, perdão, da cauda, que o Criador deve ter trocado por engano.

Repito que respeito todos por igual, mas confesso que sempre tive alguma preferência pelas pavoas. Questões de sexo, mesmo que não me considere machista. Mas, entre um lindo pavão e uma modesta pavoa, nem hesitaria em bater a asa à segunda. Até porque estes vistosos galináceos estão sob a dependência de uma pavoa que parece voar relativamente alto.

Admitindo, com todo o respeito, que temos um governo de pavões e de pavoas, sou levado a concluir que as dificuldades que o país atravessa não se devem, com toda a certeza, a despesas com galináceos, a menos que, também eles, já tenham desistido de voar, para se deslocarem como as pessoas mais abastadas e mais amigas de se pavonear nos aviões e nos salões mais chiques do mundo inteiro.

Eu não acredito que os pavões e as pavoas do governo, além de exibirem as suas deslumbrantes penas coloridas, ainda se dediquem a fazer brindes com champanhes e vinhos de qualidade extra, importados de Portugal, quase exclusivamente para esses beberetes que eles próprios organizam lá fora, para iluminar o gosto e o rosto dos muitos compatriotas que os acompanham.

Mas, por cá, também ficam pavões que se dedicam a atividades congéneres nas nossas quintas e nas nossas fábricas, melhor dito, dos amigos deles. Só que, por cá, os brindes são, por norma, feitos com bebidas estrangeiras, muito mais adequadas ao chiquismo de quem estudou muito e depressa, para dominar perfeitamente as técnicas de parecer o que nunca foram, nem nunca virão a ser.

Fábricas e quintas que estão na berra para quem não pode ir para fora. É verdade que também não podiam ir todos ao mesmo tempo. Quem dera que pudessem e ficassem por lá, para não obrigarem tanta gente pacífica a andar atrás deles por montes e vales, a fazer gritarias que até incomodam outros galináceos, habituados ao sossego desses meios rurais.      

Nos tempos que correm os pavões estão a encontrar muita dificuldade em saírem à rua nos meios urbanos nacionais. É uma confusão que eles lá fora não encontram. Deduzo que isso se deva ao fato de lá fora toda a gente os conhecer, enquanto nas quintas e aldeias que visitam, ninguém os conhece. Depois, toca a tratá-los como malfeitores, que é o que menos se encontra hoje em dia.

Como seria de esperar, a situação agrava-se muito quando os maiores pavões nacionais, tudo fazem para se pavonear espaventosamente, enquanto cacarejam no meio de outras aves, muitas delas reconhecidamente ditas de rapina, até pelos pobres galos e galinhas dos mais pobres e simples galinheiros. Depois, acontece aquele ruído de aviário sem farinha. E as bicadas nunca mais acabam.

Mas, bem podiam acabar, se os pavões, ao invadirem o espaço de todos os outros galináceos, cacarejassem de uma maneira inteligível para todos e, sobretudo, que não mexessem na farinha dos outros. E, já agora, se nos aviários se vive à hora, seria conveniente que os pavões adotassem para si próprios, um regime de salários à hora, para que a farinha não faltasse e todos tivessem a mesma esperança de vida.

 

 

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