Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

09 Jul, 2012

Bálsamo

Coisa boa para todos aqueles e aquelas que se habituaram a deixar-se embalar por uma espécie de traficantes de droga verbal, que fazem da vida um negócio balsâmico destinado a suavizar as feridas ou as dores desses embalados pelos movimentos dos sons que os rodeiam. Em lugar de procurarem pensar nas origens do ruído para o eliminarem, preferem o bálsamo que o disfarça.

É uma espécie de perfume que, espalhado sobre cheiros desagradáveis, não os eliminam, mas podem sobrepor-se a eles por mais ou menos tempo. Cheiros desagradáveis que vêm de tempos que muitos já esqueceram e muitos outros pretendem fazer esquecer. E, para isso, gastam montanhas de bálsamos na esperança de que isso resulte. E sempre vai resultando com alguns.

Alguns que inalam sofregamente o perfume que recebem como bálsamo para as suas frustrações, para as suas insuficiências, para a sua cómoda falta de vontade de conhecer os factos, em lugar de se entregarem aos traficantes de invenções suas, ou alheias, mas que não passam de velhas especulações que, de tão repetidas e manipuladas, acabam por ser aceites como verdades incontestadas.

Que isto se passe com pessoas de reduzidos conhecimentos ou de insuficiente instrução, ainda se desculpa, porque nem toda a gente tem as mesmas possibilidades de se manter bem informada, pelos mais variados motivos. O cerne do problema são os profissionais da política, com especial relevância para os que, quando lhes calha a vez, se encontram no poder e se servem dessas sujas habilidades.

De cada vez que as coisas lhes não saem bem, lá recorrem à reposição de cenas que já metem nojo a qualquer mente limpa. Algumas dessas reposições aparecem ciclicamente, sempre da mesma maneira, em jeito de bálsamo suavizante do impacto das suas asneiras, quando não das suas trafulhices. Como se isso fosse uma terapia de substituição para os seus insucessos.

Quando algum dos bem queridos trafulhas cai nas malhas das bocas do mundo, logo se vai ressuscitar um, de entre os mal-amados, que vai servir de bálsamo para atenuar as dores. E o pior vem quando os bem queridos indesejáveis são muitos, e vão sendo descobertos quase diariamente, enquanto o bálsamo acaba por ser sempre o mesmo.

Quando se tomam decisões que se presume que vão ser bem aceites, o mérito é de quem as toma, ainda que elas não sejam mais que o seguimento de orientações de outros. Se essas decisões são mal recebidas, então lá virá a desculpa de que isso é uma imposição de necessidades que vêm de trás. Como se o tempo e as circunstâncias se mantivessem inalteráveis.

Já tivemos buracos colossais que mudaram de sítio. Mas provocaram muita confusão sobre os seus obreiros e autores, precisamente, porque se pretendeu tapar com bálsamo, outros buracos supostamente bem escondidos. Já se inventaram roubos e desonestidades que, afinal, vieram, e estão a ser descobertos, do lado oposto. E muito falta investigar para que mais se vá esclarecendo.

Porque, justiça deve ser feita à má justiça que temos tido, porque há sinais de que as investigações estão a alargar um bocadinho o seu âmbito que, durante anos, teve apenas um sentido. Apesar de tudo indicar que o sentido não era único, como se está a verificar agora. Mas, repito, por cada caso que aparece do lado da seriedade e da verdade antigas, logo se vai martelar na técnica do bálsamo.

Mas, estamos ainda na fase das mentiras colossais, em que um, o mau, serve de bálsamo para ocultar todos os bons que vão aparecendo. Esse bálsamo é tão milagroso, e atingiu tal celebridade, que iliba a responsabilidade da hipócrita nata política europeia. Que é, também ela, a nata da mentira colossal, que toda essa nata política está a ocultar e a dissimular, usando bálsamos de marcas ocultas.