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afonsonunes

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10 Jul, 2012

Vamos à farmácia

 

Tudo indica que vamos ter dois dias sem médicos, o que quer dizer que não podemos ir à farmácia aviar a receita que não conseguimos que nos fosse passada. Isto, que à primeira impressão parece um problema que vai causar mais doenças que a falta de médicos, não passa de um não problema. Tudo vai da cabeça das pessoas que até são capazes de morrer a pensar que não lhes resta outra receita.

A ver as coisas desta maneira, as farmácias bem podem também fechar as portas, pois sem receitas não há remédios para ninguém. Estou convencido de que nem os médicos acreditam que vai ser assim. Refiro-me aos médicos que exercem nos hospitais e nos consultórios, pois as farmácias estão cheias de médicos e médicas que não precisam de passar receitas para venderem medicamentos.

Os medicamentos que venderem à quarta e à quinta, sem receita, terão os respetivos descontos com as receitas que os seus compradores forem buscar às consultas de sexta-feira. Portanto, são apenas dois dias de engenho e arte para saber fazer as coisas. Quanto aos doentes com problemas graves, só terão de pensar que os dois dias úteis, afinal, são dois dias seguidos de feriado.

Aliás, os médicos cometeram um erro de palmatória ao prometerem ir praticar a uma quarta e quinta-feira, o horário dos domingos e feriados. Essa estratégia pode retirar-lhes o esperado sucesso da paralisação. É de louvar o espírito de respeito pelos doentes, mas o sucesso dos médicos só será avaliado pelas consequências, obviamente, negativas, sobre as vítimas que causarem.

Por outras palavras, se tudo correr mal para os doentes, tudo correrá bem para a causa da paralisação. Se tudo correr bem para os doentes, a greve dos médicos será, inevitavelmente, uma vitória para o ministro da saúde. E aqui é que está o busílis da questão. Seja qual for o resultado ao longo dos dois dias, ele será avaliado de maneira completamente diferente pelas partes em conflito.

Porque a seguir, tudo o indica, vai haver negociações e na base delas vai estar o resultado e as consequências da greve. Todos sabemos como se fazem contas nestas coisas. Todos sabemos também como o governo, no caso o ministério, usa argumentos muito mais dirigidos aos eleitores, que aos interessados nas negociações, aliás, como aconteceu antes da paralisação.

Por norma, sou contra todos os argumentos que vão no sentido de convencer as pessoas prejudicadas e os governantes e outras entidades patronais, de que os grevistas deste, ou daquele sector, são casos especiais de trabalhadores imprescindíveis à vida do país. Até podem ser, mas não são os únicos, pois, bem vistas as coisas, todos os trabalhadores são imprescindíveis para que o país funcione. Até os indigentes.

Gostava de saber se o país aguentava muito tempo sem a recolha do lixo que todos fazemos. É apenas um exemplo. Quem tem trabalho muito especializado já tem o salário e o estatuto que o distingue. Quanto às greves, todos têm o direito de as fazer, mas fica-lhes bem, a todos, de todos os setores, meterem as mãos na consciência quando invocam argumentos mais que egoístas para as justificar.

Também gostava de saber o que leva entidades patronais, governo incluído, a não terem pena do dinheiro que esbanjam com tantos montes de trabalhos que albergam, inúteis e principescamente pagos, quando depois têm trabalhadores que os sustentam, a todos eles, a ganhar cada vez menos, chegando ao desplante de se aproveitarem de situações aviltantes de desemprego, para humilhar quem vive com fome.

No caso dos médicos, como no dos enfermeiros, como em todos os casos de especialidades com estatuto social mais elevado, é evidente que têm mesmo necessidade de ganhar o correspondente à manutenção desse estatuto e às despesas a ele inerentes. Mas, sobretudo, têm direito a condições de trabalho dignas de gente, e não de simples peças de qualquer fábrica de humilhação humana.