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afonsonunes

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11 Jul, 2012

Créditos

 

Quem me dera ter alguém que me creditasse ao menos cento e sessenta euros na minha magra conta bancária para que com eles pudesse receber trinta e dois cursos práticos, dos trinta e seis que constituem o pleno da sabedoria humana. Mas, basta olhar para a minha cara e vê-se logo que não tenho perfil para tanta creditação. Nem tão pouco tenho jeito para pedir os cento e sessenta euros a crédito.

Ainda pensei em tirar os quatro cursos que restavam dos créditos, mas a vida não está fácil para toda a gente. Para aproveitar esse bónus, tinha de possuir umas moedas no respetivo porta mas, não chegavam e, por isso, não paguei, pelo que se foram os quatro cursos que, por acaso, eu até nem precisava de fazer exames, nem sentar-me em qualquer cadeira para os arrancar com toda a minha preensão.      

Pensei então, uma vez que estava teso, que não podia deixar voar os trinta e dois cursos, vindos dos cento e sessenta euros de créditos que, por acaso, até nem tinham nada a ver com créditos mal parados. Posso orgulhar-me de que, nesse e noutros aspetos, não há ninguém que me ultrapasse em qualidades creditáveis, em competências transacionáveis e em relações facilmente trocáveis.

Sempre relembro que são trinta e dois cursos que tenho no meu miolo, sem contar com os quatro que estiveram à beirinha de entrar, dois por cada ouvido. Falharam por pouco, mais precisamente, por uma bagatela de vinte euros, diferença entre os cento e sessenta e os cento e oitenta euros dos tão preciosos créditos que eu deixei que ficassem em boas mãos porque, comigo, tudo tem retorno.

Adivinho que há por aí quem esteja a torcer o nariz sobre as competências que demonstrei para cada um dos cursos. Não tenho problema nenhum em torná-las públicas, mesmo correndo o risco de alguns invejosos tentarem seguir-me o exemplo e começarem já a correr em direção à universidade onde me licenciei, com toda a normalidade e com toda a competência que me foi reconhecida em toda a linha.

A mais difícil tarefa que me surgiu veio do curso de relações internacionais. É que eu tinha de demonstrar que já tinha ido ao estrangeiro, senão tinha de me ficar por um curso de relações nacionais. E a dificuldade maior residia na compra de passagens de ida e volta. Com a ajuda de um amigo, lá consegui trocar uns bons conselhos tirados da minha sapiência, por bilhetes de ida e volta a Badajoz.

Quase nem saí do comboio, mas deu para falar com o revisor espanhol enquanto me furava o bilhete e, já na estação, com a empregada dos sanitários, enquanto eu me aliviava. Depois do regresso ao país, tive de apresentar os dois bilhetes, para provar que não tinha ficado por lá. Passada esta trabalheira toda, lá me foi reconhecido o curso com a indicação dos valores gastos nos bilhetes.

O curso de ciências políticas foi muito fácil, como se calcula, em função da minha expertência de muitos anos. É preciso saber trocar bem as tintas e nunca confundir a cor rosa com a cor laranja. Mas, para mim, isso sempre foi canja. Bastava uma simples associação de ideias entre uns amigos adeptos dessas cores e os seus feitos mais importantes. Mais um curso obtido em toda a linha, que nem toda a gente consegue tirar.

Como não podia deixar de ser, também o curso de folclore me deixou agradáveis recordações. Eu tocava qualquer instrumento, e ainda toco, perfeitamente. E, enquanto toco, ainda danço com um, ou uma qualquer. Tanto faz que saia um corridinho, como uma valsa. O que vier, eu danço. Mas, para tirar o curso foi preciso obrigar muita gente a dançar comigo. É que, como eu, nem toda a gente dança em toda a linha.

Só espero que não me peçam para explicar pormenorizadamente como tirei os restantes vinte e nove cursos. Obviamente que foi com a mesma dignidade dos três referidos. Mas, não quero que se entusiasmem demasiado com a minha facilidade em mostrar como se é superior entre inferiores. Nada que se compare com facilitismos. Para mim, para a minha competência, não há créditos que cheguem.