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afonsonunes

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13 Jul, 2012

Ingratatões

 

É inadmissível o procedimento de pessoas de tanta categoria e credoras de tanta admiração por todo o país, fazerem uma desfeita daquela natureza, a quem tanto lhes tem dado, em termos de notoriedade, tanto a nível deste abençoado território, como ao nível máximo a que qualquer ambicioso pode aspirar, que é o nível europeu, quando se chega a estrela exemplar.

Mas, só pode ser estrela exemplar quem tiver o privilégio de receber uma mão amiga que o puxe para cima, um protetor que o eleve aos píncaros do exemplo. Só por pertencer a um grupo de seres sob o comando do mais competente e rigoroso homem europeu. Daí que seja inadmissível que essa dezena dos seus colaboradores mais próximos, o tenham deixado quase sozinho naquela noite tão especial.

É verdade que tinha lá os dois fiéis Miguéis na primeira fila. Que até poderia argumentar que nem precisava de mais ninguém. Que até podia prescindir também dos dois Miguéis, sem que alguém fizesse qualquer observação. Mas, o protetor ficou furioso porque essa dezena de servidores do escalão máximo, tinham o dever inalienável de estar presentes, para que toda a assistência os pudesse aplaudir.

Porque o protetor já não precisa de aplausos, tal a veneração que já conquistou cá dentro e lá fora. Já mostrou todas as suas virtudes e a sua coragem e determinação na obtenção dos objetivos que a si próprio impôs. Mas precisa de mostrar a sua equipa de generosos e incansáveis colaboradores, para que se reconheça que ele, protetor, também é exemplar a escolher quem o rodeia.

Por isso, ficou furioso ao ver que eles faltaram à cerimónia onde queria apresentá-los como coautores do seu êxito, apesar de saber que essas faltas se deveram exclusivamente à modéstia que sempre os caracterizou. Isso não impede o protetor de os considerar uns ingratos, muito mais, uns ingratatões, que deviam saber que não há modéstia que justifique um momento de abandono do seu exemplar protetor.    

Protetor que tinha todo o interesse em fazer ouvir de viva voz, a explicação da colossal lentidão do Vítor. Lentidão que justifica plenamente a sua eficiência, já para não falar da sua eficácia, quando usa o seu habitual silêncio. A sua falta foi ainda mais notada, porque não teve a compensá-la a presença do envergonhado Paulo, que nunca está disponível para falar em frente de tanta gente. Muito menos ali.

Tal como o Paulo, também o Mota e a Assunção entenderam que não estavam à vontade naquela sessão tardia de mais, para lhes ser permitido recuperar o sono acumulado da tarde toda sem sesta. Certamente que o protetor não ficou furioso com estas faltas pois, toda a gente sabe que eles gostam de ir pregar para outra freguesia, onde o Paulo também gosta de ser protetor, ali sim, muito mais falador.

Agora, os maiores causadores da fúria do protetor foram, sem dúvida, o Álvaro e a Paula. Porque estes são os dois exemplos de como se trabalha e, ao mesmo tempo, como se põe o país em descanso permanente, tarefa que contribui decisivamente para o elevado grau de confiança que os portugueses não se cansam de lhes manifestar e aplaudir. E era para eles que o protetor reservava os maiores elogios nesta sessão.        

O guerreiro José, o saudável Macedo e o educado Nuno, também contribuíram para a fúria do protetor. Especialmente o primeiro, habitual e fiel devoto, já que os outros dois podem ter pensado que não faziam lá falta. Foi um lapso de intenções que, certamente, depois de pedidas as desculpas da ordem, tudo voltaria à normalidade. Mas o José não passaria sem um valente puxão de orelhas.

Todos os ingratatões, ingratos elevados ao expoente máximo, sentiram o peso da voz do protetor. Uns, porque sabiam perfeitamente que deviam ter ido àquela missa, rezar pela sua própria alma, outros, porque tiveram receio de ir entregar a alma ao demo. Mas, afinal, tudo acabou em bem, depois de sentirem um calor estranho nas orelhas. Porque a voz do protetor, um tal de Pedro, era um bocado quente.