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afonsonunes

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Já alguém muito mais importante que eu, deve estar prestes a mandar dizer-me que não me admitem que ande para aqui a escrever coisas inadmissíveis sobre quem está a fazer tudo, mas mesmo tudo, dentro da legalidade. Ainda que eu pense que também estou dentro da legalidade. Mas é preciso ter em conta, dizem, que a legalidade deles é muito mais legal que a minha.

Dentro deste princípio, não me restaria outra solução que não fosse meter a língua na caixa e ir escrever para outro lado, desde que me passasse para o lado deles. O problema é que eu só conheço um lado e esse é o meu lado. Porque nunca conheci outro, e espero bem que não venha a conhecer, por mais danças e contradanças que se exibam à minha volta.

Ainda estão a tempo de reverem o que têm dito ao longo do tempo, todos aqueles que notaram um ambiente irrespirável à sua volta. O ambiente que nos rodeia hoje em dia, talvez os deixe mais tranquilos mas, de modo nenhum, os pode deixar mais seguros. Porque também eles, tal como eu, não podem deixar de ouvir ruídos de ventoinhas gigantes, capazes de levantar nuvens de poeiras daninhas.  

Para mim, o problema até não está nas ventoinhas, agora trazidas para a ribalta. O problema está na porcaria que os atacados pelo calor, deixam acumular no lugar onde põem as ventoinhas para se refrescar. Depois, dizem que não colocam porcaria nelas. Pois não, vivem cercados por ela. O maior problema é que ela só se nota quando eles ligam a ventoinha.

Sinceramente que não me admiraria nada que ainda viesse a ser acusado de ser uma velha e ruidosa ventoinha. Mas, lembro eu, a ventoinha só espalha o que lhe põem na frente. Acontece que as ventoinhas de grande potência, que gastam muita energia, que até está cara que se farta, levantam muito mais porcaria, causando muito mais danos aos que a provocam.

Se eu fosse realmente uma ventoinha, seria uma daquelas caravelas de papel de lustro que as crianças voltam ao vento, praticamente inofensivas, para as quais ninguém olha, a não ser a criança que a segura na mão. E a minha caravela, lenta muito lenta, rodopia com a débil energia de uma aragem suave, que não tem nada a ver com as ventanias que tantas vezes se sentem.

Ainda um dia destes puseram na minha frente um dito que em nada me surpreendeu: alguém disse para um seu subordinado, que não lhe tolerava que voltasse a criticar o senhor doutor. Ora eu, simples e modesta ventoinha, considero que isto, sim, é colocar porcaria da grande, na frente da própria boca que, a soprar assim, é das ventoinhas que mais difundem porcaria neste país.   

O mais preocupante é que ninguém, que eu saiba, tenha sequer estranhado a energia que uma ventoinha deste quilate gasta ao país. Que não tenha havido quem se indignasse com esta porcaria que provoca aquela coisa a que já em tempos chamaram uma espécie de claustrofobia não sei de quê. É muito curiosa a forma como evoluem os sintomas e a maneira como se avaliam as curas.

Nem vale a pena referir outras ventoinhas que se fazem sentir diariamente e que nada têm a ver com esta que vos sopra agora neste local. Parece que aumentam as rotações de uma forma cada vez mais preocupante. Ora, mais rotações, equivale a maior poder de levantamento das porcarias que têm debaixo dos sapatos e não se vê um gesto sequer que nos afaste da sua nefasta influência.    

Estou disposto a voltar imediatamente a minha ventoinha de costas para o vento, desde que deixe de sentir a ameaça das grandes e poderosas ventoinhas que, devido à sua potência, ninguém parece ter coragem de carregar no botão que as desligue da corrente. Até parece que alguém está com medo de apanhar um choque valente e fatal. Alguém, ainda está a tempo de evitar grandes contaminações.