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afonsonunes

afonsonunes

20 Jul, 2012

Corta-me

 

Corta-me esta vontade indómita que eu tenho de me atirar a alguém ou a alguma coisa e descarregar este fogo interior que me deprime quando, mesmo sem querer, não deixo de pensar na vida. Mas, também, no que é que eu havia de pensar, se até o pensamento é uma chama viva que queima.

Ao fazer este pedido para me cortares a vontade, tenho receio que percebas mal o meu pedido e comeces a cortar-me o que eu não quero. Por exemplo, esta necessidade que eu tenho de escrever, ainda que não tivesse ninguém, tantas vezes, a fazer o frete de passar o olhar por cima disto.

Resta-me a consolação de que daí não me vêm cortes porque, mesmo o que não presta, aqui ficará inteiro, tal como o imaginei. Mas, os cortes já vêm sendo tão frequentes, e alguns tão desumanos, que me apetece desabafar quanto a cortes que bem podiam fazer-me esquecer os que me fazem sentir dor.

Corta-me esta sensação que tenho, de que este Verão não é como aqueles que estava habituado a ter. Gostava de ver as esplanadas cheias de gente, com copos de cerveja na frente, com mariscos dos mais baratos aos mais caros, tudo fazendo abrir rostos e soltar umas saudáveis gargalhadas.

Gostava que me cortasses a ideia de que neste período de férias, as praias estão a meia lotação. Que as pessoas levam para o almoço umas sandes de manteiga, ou margarina, e uma garrafa de litro e meio de água que tem de dar para vários bebedores. Talvez porque pesa um quilo e meio.

Os mais inconformados levam uma cerveja, ou duas, com um plástico de tremoços e já nem deixam as cascas no areal. Ainda se vê uma ou outra menina ou senhora que não prescinde do cigarro. Mas são menos que em anos anteriores. Ainda espetam a beata na areia.

Mas, o que mais gostava que me cortasses, era a possibilidade de deixar de ouvir as sentenças da misericordiosa troika que nos governa. Não queria que lhe fizessem tanto mal como ela me está a fazer. Só queria que lhe cortassem a voz que tanto me incomoda.

Porque, agora, até resolveu passar a ser a minha misericórdia. Ela é, ou vai passar a ser, quem, misericordiosamente, passa a dar-me uma ajudinha quando eu estiver mesmo a cair para o lado. Talvez umas bolachas maria. Até lá, vai dar-me todo o apoio moral de que eu precisar. Mas, sem despesa.

Por favor, corta-me o cabelo e, se possível, a todos os portugueses mas, à antiga, com a malga redondinha na cabeça. O cabelo que cair no chão depois do corte, permitirá uma receita extraordinária em favor da misericórdia, no valor de uma data de milhões de euros.

Sim, quando se falar de ajudas, de misericórdias, de assistência, de apoios, de subsídios, de rendimentos, só pode falar-se dos milhões que se poupam. Ora, cabelo cortado, é cabelo vendido e tudo o que se vende é poupança, desde que não se cometa o despesismo de acudir a alguém com a corda na garganta.

Depois de toda esta escrita sem nexo, não sei se não teria sido preferível ter poupado este esforço, bem como a poupança do esforço de quem vai ler isto. Mas, só agora reparo. Estive aqui a pedir cortes diversos a alguém. A verdade é que me esqueci de quem é que podia satisfazer-me os pedidos desses cortes.