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afonsonunes

afonsonunes

25 Jul, 2012

Se tiver

 

Se algum dia tiver que acabar com as jantaradas tenho que me habituar às almoçaradas. É que eu não concebo esta vida sem uma boa refeição por dia. E uma boa refeição é aquela em que se enche a malvada e não se paga nadinha. Perdão, em que eu não pago nada.

Esta confusão entre paga não paga, surge-me sempre que penso que me estou lixando para todos aqueles que têm de pagar e não bufar, aquela pançada que não dispenso uma vez por dia, também por causa da companhia que ajuda, e muito, a criar folego para o discurso da praxe feito a seguir.

Se algum dia tiver de acabar com estes discursos depois de bem comido e bem bebido, é sinal de que o país já mudou muito e para muito melhor. Mas, evidentemente, isso é se eu tiver de acabar o que, certamente, ninguém está à espera que tal aconteça. E muito menos eu próprio.

Pensando bem, não sei por que carga de água me ocorrem estes pensamentos macabros, quando há tanta gente que acredita em mim. Tanta gente que me incentiva a que me esteja lixando para quem se queixa. Tanta gente a sofrer, só porque eu não proíbo de vez os ruídos que abafam os aplausos.

Se algum dia tiver de me acontecer o que está a acontecer com o meu braço direito, juro que não me fico como ele. Juro que me vou a eles e terei todo o gosto em mostrar-lhes que ninguém me fez favor nenhum. Pelo contrário, eu fui sempre a todos os jantares e nunca me deixaram pagar nada.

Porque eles sabem que eu e o meu braço direito, sempre cumprimos escrupulosamente todos os deveres que nos ensinaram na escola. E o primeiro desses deveres é o de, um pelos dois e os dois por um. E quem pensar o contrário que se lixe, tal como nós nos estamos lixando para todos.

Se acaso um dia me der na real gana de disputar eleições e se algum dia tiver de as perder, tudo bem, porque eu sei que nunca vou perder nadinha. O pior que me pode acontecer na vida, é suportar esta triste e ingrata tarefa de ouvir tanta compreensão e tanta admiração por nós os dois.

Porque, durante uns tempos, do tipo de um ano e meio dois anos, ainda vá lá, a gente aguenta. Aliás, como eu e o meu braço direito estamos a aguentar. Agora, por mais tempo, tantos elogios, tantos aplausos, tantos estímulos, nunca por nunca ser. Que se lixem os que perdem tanto tempo a elogiar-nos.

Se acaso tiver que aguentar isto mais meio ano, por exemplo, já me considero um verdadeiro herói nacional. E isso só será viável se o meu braço direito me aguentar aqui, com todo o estoicismo que o caracteriza. Então, eu não terei dúvidas em dizer-lhe que ele foi o heroico salvador do país.

Senão, o país que se lixe, porque lixado já eu fui por ter tido a coragem de aguentar isto tanto tempo, depois de ter cometido o erro de pensar que vinha comer jantaradas de borla, sem perder o subsídio de almoço, porque eu não almoço, senão o jantar tinha de ser aligeirado.

Portanto, se eu tiver que perder eleições, que seja quanto antes. Porque eu e o meu braço direito estamos fartos disto. Apesar dos elogios e da competência que toda a gente nos reconhece, nós já decidimos que não há vida como a de estudante. Logo, seguindo a tradição, vamos estudar.

Há por aí muita gente a comer bem, graças a nós. À grande e à portuguesa. Portanto, eu e o meu braço direito, já cá não fazemos falta nenhuma. Pode ser que um dia voltemos com os nossos novos cursos au point. Até lá, vão-se todos lixar. Au revoir.