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afonsonunes

afonsonunes

27 Jul, 2012

Poupa, poupa!...

 

Todos os dias sou surpreendido com notícias que me dão conta de milhões e mais milhões poupados aqui e ali. Acho ótimo que tenhamos um governo poupado, pois bem precisamos de meter alguma coisa nos bolsos vazios. Por momentos penso que vou livrar-me deste desaforo.

Logo a seguir ouço nas notícias que as dificuldades são cada vez maiores para satisfazer os compromissos do país. O governo poupador, afinal, logo me dá a sensação de que cada vez gasta mais do que tem, apesar de estar muito preocupado, mas também muito confiante no seu sucesso. Coisa engraçada.

Para alcançar esse sucesso, precisa das nossas poupanças, mas prescinde da necessidade de ir buscar dinheiro onde ele mais abunda, que são os bolsos dos seus membros, dos amigos dos seus membros e dos parceiros nos negócios dos seus membros, além de uns tantos que permanecem sempre intocáveis.

Daí que quanto mais nós pouparmos, mais nos vêm sacar, porque há aqueles que já lhes sacaram tudo, logo, ficam isentos. Depois, há aqueles a quem não se pode sacar nada porque é ilegal. Resto eu e aquela mole de gente indefesa que ainda tem alguma coisa para pagar as favas.

Portanto, toca a poupar para que nos venham sacar. Só que eu estou com um pequeno problema. Como me vão levando o que poupei ao longo da vida, já não posso continuar a poupar, pois o que ganhava, também já me foi largamente sacado, como a tantos, em descontos e cortes legais ou ilegais.

Eu e muitos portugueses comprámos a nossa casa como medida de um futuro mais tranquilo, apesar de essa compra ter representado, em muitos casos, um sacrifício razoável, ou mesmo muito grande. Agora, como já não há outra forma de sacarem a mais gente, lembraram-se de nós.

E nós, os proprietários das suas próprias casas, vamos passar a ser arrendatários do estado que, através do imposto sobre imóveis, vamos passar a pagar rendas mais elevadas, ou quase, do que se estivéssemos em casas alugadas a um qualquer outro senhorio.

Porque temos um senhorio cego, surdo e mudo, o estado, que só pensa na renda que nos pode sacar e, com todo o descaramento, ainda nos exige que sejamos poupados, para sair de um buraco que outros criaram. Outros, a quem não se exige o que roubaram, ou o que lhes meteram nos bolsos à socapa.

Por princípio, o estado devem ser todos os seus cidadãos. Por princípio, todos os cidadãos devem assumir os compromissos do estado como seus. Pergunto aos representantes dos cidadãos na administração do estado, se é isso que está a acontecer. Se é isso que lhes compete fazer, como administradores do estado.

É um lugar-comum dizer-se que os sacrifícios têm de ser equitativamente distribuídos por todos. Mas há administradores do estado que dividem os cidadãos no grupo dos que os fizeram administradores, e no grupo dos que não lhes lambem as botas. São, evidentemente, administradores da miséria nacional.

Porque, dinheiro para passeatas, almoçaradas e jantaradas, sempre com muito boa disposição, e até, com muito ar de cinismo, é coisa que não deixamos de ver. Aí, nesses orçamentos escandalosamente mantidos, não há cortes nem descontos que suavizem um pouco a miséria do povo.

Por tudo isso, há um grito que apetece soltar espontaneamente, sem que ele seja movido por qualquer espécie de ódio contra ninguém, muito menos contra o país de que nos orgulhamos: Poupa, poupa!... Quanto mais poupares…