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afonsonunes

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28 Jul, 2012

A coisa e as moscas

 

Tempo de verão é tempo de moscas, esses incómodos insetos que nos obrigam, em determinados locais, a estar constantemente a enxotá-las, chegando a esgotar a nossa paciência pela teimosia em não nos deixarem em paz, mudando constantemente de local de poiso.

No entanto, esquecendo o incómodo, há quem diga, ‘quem me dera ser mosca’, para poder pousar onde lhe apetecesse, pensando na vantagem de poder estar nos locais mais apetecíveis sem a devida autorização ou consentimento. E com risco mínimo de ser enxotado de vez.

Quando penso na atividade política, lembro-me muitas vezes das moscas. Porque os políticos são como elas, chatos, teimosos e sempre ávidos de sugar a pele das suas vítimas. Só que não os podemos enxotar como fazemos com as moscas. São muito maiores que elas.

E, como também são muito maiores que nós, também eles nos enxotam, quando lhes convém. Para eles, as moscas somos nós, tentando por todos os meios que não os incomodemos, quer com as nossas picadas, quer com o nosso zumbido à volta deles.

Por vezes, para se libertarem de nós, tentam entreter-nos com pingos de mel, pois sabem que nós, moscas gulosas, nos perdemos com o ferrão enterrado em tudo quanto é doce. O pior é quando eles, armados em caçadores, nos pregam com o mata-moscas em cima.

Mas, mel é coisa muito rara na maneira dos políticos tratarem as moscas que sentem necessidade de controlar. E então, tentam fazê-lo com vinagre, que é um subproduto do seu feitio altivo, arrogante e convencido. De tal maneira que ainda não descobriram que não é com vinagre que se caçam moscas.

Andam muito nervosos os políticos da área do poder, o que os leva a comportarem-se como moscas fugidias que pousam, picam e fogem, com a agravante de trazerem o ferrão envinagrado, para todos aqueles que não aceitam de bom grado as suas picadas.

Pensam esses políticos que podem e devem transformar este país numa democracia de partido único, em que possam dar ordens a todos no sentido de lhes orientarem o pensamento e de lhes imporem a cartilha por onde devem ler as suas orações, para que o país seja salvo dos perigosos moscardos.

Tudo indica que os perigosos moscardos são os próprios políticos que já voam exatamente como eles, picam violentamente como eles e provocam febres para as quais não encontram remédios. O país está doente e tudo o que têm para nos dizer é que temos de continuar a deixar que nos piquem cada vez mais.

Não se apanham moscas com vinagre. O mesmo é dizer, não é com lixadelas que nos convencem de que são os salvadores do país e os heróis de todos os cidadãos. Porque os heróis não são os que se intitulam, mas aqueles que os cidadãos reconhecem como tal. Ao contrário do que pensam, há sempre alternativas.

Que se convençam os unanimistas que os cidadãos são livres de ter opiniões e de ter os seus heróis que, felizmente, nunca são os mesmos para todos. Alguns dos candidatos a heróis bem tentam, ainda hoje, acreditar que vão conseguir impor-se a todos. Mas isso, nem com o mata-moscas em punho.       

Vai-se ouvindo que os políticos, as nossas moscas, por mais que tenham mudado ao longo dos anos, nada conseguiram mudar, porque está bem à vista tudo aquilo que nos deixaram. E o que nos deixaram foi sempre a mesma… coisa, que continua a cheirar mal que se farta.

Haja, pois, alguém que enterre essa coisa que cheira mal e já dura há demasiado tempo. Para que as moscas não poisem nela. Depois, se for preciso, use-se o mata-moscas.