Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

29 Jul, 2012

Vamos lá supor

 

Este exercício do ‘suponhamos’ é muito encorajador quando nos apetece suplantar a realidade e entrar no mundo da fantasia. Supor que temos o que nunca poderemos ter, ou supor que vamos, onde sabemos que os nossos pés nunca terão a felicidade de passar por ali, é o máximo.

Pois, podemos supor que sim, que podemos. Por exemplo, como eu gostava de ter estado em Londres, naquele fenomenal evento que nos chegou via televisão. Daí que não me contivesse no meu lugar de telespectador e fizesse tudo como se lá estivesse. Ou, pelo menos, pensei que fiz.

A primeira coisa foi pôr-me ao lado da minha Maria que, por acaso, estava entusiasmadíssima, coisa que até nem é costume. A meu pedido, ela tinha no colo um alguidar de pipocas, porque aquilo era como se tivéssemos ido ao cinema. Coisa que já nem me lembro de ter acontecido.

Depois, com o meu entusiasmo ao rubro, o que também nem sempre acontece, lá fui misturando pipocas na boca com imagens nos olhos, num vai vem da mão entre o colo dela e a minha boca, a ponto de já não poder dizer nada de jeito, pois a língua estava completamente empastada.

Com a mão ocupada, nem podia bater palmas como a minha Maria, mas lá ia levantando os braços, enquanto a assistência gritava o nome de Portugal. Bem tentei gritar também. Mas a papa de pipocas não deixou. No entanto, eu não tirava os olhos daquela bandeira nacional e o meu entusiasmo crescia, crescia.

Cheguei a supor que estava ali ao lado da rainha a falar da situação político-económica do Reino Unido. Até porque a minha Maria estava sempre a meter o bedelho na nossa real conversa. Às tantas a rainha também estava entusiasmadíssima com a conversa que eu lhe estava a proporcionar.

Chegou mesmo a desinteressar-se completamente do desfile de regresso ao passado, quando eu lhe lembrei os maiores sucessos que tiraram o meu país desta embrulhada em que o Reino Unido está metido. E também o mundo, tudo porque não quis ouvir os meus avisos, tanto escritos como verbais.

Tive de mandar calar a minha Maria, porque queria à viva força dizer à rainha, que tinha sido ela a chamar a atenção para a necessidade da minha intervenção neste contexto tão complicado, dado que eu era a única pessoa com conhecimentos e capacidades para acabar com tantas más decisões e tantas indecisões.

A rainha felicitou-me por ter uma Maria tão interventiva e tão exuberante, coisa que nos dias que correm não é muito vulgar. Citou até o seu caso, dizendo que lhe cortaram o ordenado sem a terem consultado antecipadamente. A minha Maria não se ficou: se me fizessem isso a mim…        

Escusado será dizer que a minha Maria aproveitou logo para dizer à rainha que, se fosse ela, nunca permitiria gastar-se tantas libras em jogos tão luxuosos e faraónicos. A rainha, por seu turno, logo lhe lembrou que, se chegou a pensar assim, escusava de ter lá ido aumentar a despesa.

Enfim, a conversa entre elas nunca mais acabava, motivo por que os meus avisos político-económicos à rainha ficaram aquém do que podiam ter sido em termos de utilidade para a coroa. Mas, tenho a certeza de que não faltarão outras ocasiões para aprofundar os meus reais conselhos.

Não há nada mais fascinante que supor-me acima do real. Ao lado da minha Maria, posso supor-me acima do próprio mundo. Ela diz e eu faço. Como o mundo seria bem melhor e mais feliz, se seguisse as minhas oportunas doutrinas, escritas ao longo de uma vida a escutar a minha Maria.      

Já agora, aproveito para dizer que o nosso país, meu e dela, se não está nada mau, ainda podia estar um bocadinho melhor. Bastava só que não pensassem que eu sou como a rainha de Inglaterra.