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afonsonunes

afonsonunes

30 Jul, 2012

O exigente

 

Se não temos um verdadeiro valente no governo, temos um autêntico exigente na oposição. Isto significa apenas que não adianta andar a fazer exigências a quem não tem, nem quer ter, a mínima vontade de as satisfazer. Mas, se acaso a tivesse, a tibieza das suas convicções, também o não deixariam.

O nosso persistente e diligente exigente, deve ter o bom hábito de, logo pela manhãzinha, ler todos os jornais. Desconfio ainda que ele passa a noite a ouvir as notícias vindas do ar. Desse louvável esforço para se manter bem informado, resulta um poder de exigência fora do comum.

Ele acredita que todas as notícias que ouve, são uma fonte de exigências por excelência. Só não acredita nas notícias de fonte governamental ou de origem troikiana. Como é evidente, estas fontes são aquelas que, para ele, já secaram há muito tempo, daí que não queira engolir em seco.

Já exigiu explicações sobre quase tudo o que não tem explicação. Mas ele considera isso muito positivo, dado que, cada explicação exigida e não satisfeita, é um parágrafo para o seu futuro programa de governo. Porque ele, apesar de não querer o governo, quer ter um programa de governo.

E eu acho muito bem, porque mostra ser um político, não só muito exigente, mas muito metódico, muito trabalhador e muito previdente quanto ao futuro. Como não quer ir já para o governo, quer deixar trabalho feito, que sirva para demonstrar que deixa uma notável herança ao seu sucessor.

Como seguro que é, quer demonstrar ao eleitorado que também é um segurado exemplar. Ainda há dias contestou a decisão de que quem não tem seguro de colheitas fica a ver as tempestades passar. Tem toda a razão, porque segurados exemplares todos são. Trouxas são os segurados que pagam o seguro.

Ele é efetivamente muito seguro nas suas exigências. Só exige aquilo que alguém já exigiu. Há muito que anda a exigir mais tempo e mais dinheiro. Ora a maravilha. A ministra já fez mais, e há muito mais tempo. Já exigiu a Deus que mande chuva depressa, e já exigiu aos seus mandachuvas que mandem dinheiro já.        

Mas, para não ficar para atrás nas suas exigências, parece que mandou agora três cartas muito bem escritas à mão, por uma questão de autenticidade da sua autoria, para que os nossos indefetíveis protetores lhe concedam a graça de mais tempo para o seu mandato e mais dinheiro para percorrer o país.

Esta ideia das cartas é fenomenal. Ela revela que ele não tem jeito para arranjar dinheiro fácil como os amigos dos seus competidores do governo e que não tem a garantia de manutenção em funções, como os insubstituíveis ministros que muita gente anda para aí a barafustar para que saiam.

Ele é tão seguro que não arrisca falar de uma coisa, nem de outra. Sim, porque sobre isso, ele não se atreve a exigir nada, simplesmente, porque sabe muito bem que levava uma nega de todo o tamanho. E, para negas, já bem bastam todas as que lhe têm dado, sem a mínima explicação.

Claro que isso não se faz. O rapaz é bem-educado, é seguro nos seus deveres, é inseguro nos seus atrevimentos, logo, merecia umas palavrinhas de compreensão, para não dizer de justificação. Mas, a estes deuses nada se pode exigir. Quando muito pode, respeitosamente, solicitar-se compaixão.

Do que ele não está seguro, é de quantas marteladas semanais vai levar daqui até às eleições. Se elas já estivessem marcadas era fácil fazer as contas. Assim, aguenta seguro, que ele é mesmo martelo de repetição semanal. Já será mesmo medo?