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afonsonunes

afonsonunes

03 Nov, 2008

Diz-me ao ouvido

 

 
Não é que eu seja surdo, embora com muita frequência faça de conta que o sou. E nisso, não tenho dúvidas de que há muita gente que faz o mesmo, para não se arrepender de ter saído à rua ou, pior ainda, de ensaiar uma resposta de que pode arrepender-se logo a seguir.
Também não é por causa do ruído do trânsito ou da algazarra de certas pessoas que nos atroam os ouvidos, mesmo quando estamos na nossa casa, que já nem sempre é o lar, doce lar, de outros tempos menos conturbados. Mas, não se pode ter tudo.
O progresso que, geralmente, aumentou a qualidade de vida, só nos tem trazido silêncio no pior sentido. É aquele silêncio que dói, porque as pessoas que não berram com os outros, tornaram-se caladas demais, isolando-se no seu canto e obrigando aqueles que lhes estão próximos, quantas vezes, a procurar o canto oposto.
Estamos no mundo das trocas. Trocamos alegria de viver pela tristeza das discussões por dinheiro, como se de uma feira se tratasse, pois as compras e vendas, todas elas, não passam de trocas de qualquer coisa, pelo vil metal, que tilinta ao passar de mão em mão, acompanhado de trocas de palavras mais ou menos delicadas, em surdina, segredadas, ou excitadas pelo calor da coisa regateada.
Oiço perfeitamente o que vai dentro dos corações apertados pelo silêncio de crianças e idosos, quando ninguém lhes mostra um sorriso que os leve a tentar abrir o seu. Mas já não oiço as saudáveis gargalhadas que as depressões e os isolamentos apagaram dos rostos de tantas criaturas, espalhadas por esse mundo todo.
Não quero convencer-me que não virá um dia em que, quem possa, não ponha a mão em concha junto do ouvido para melhor perceber o que se passa à volta daqueles que não andam à sua volta. Vai ser difícil ouvir essas vozes apagadas, mas bastará um olhar atento para ouvir os gemidos da tristeza que lhes baila nos olhos húmidos.
Talvez um dia se acabe a algazarra daqueles que não querem ouvir mais que a sua própria voz, verdadeiros arautos de uma hipocrisia globalizada e de um sentido de humor que nos arranha os ouvidos e nos enche o corpo de pele de galinha.
Falar alto, falar baixo, até nem fazia grande diferença, desde que as boas maneiras e o respeito pela dignidade de quem ouve, entrassem no assunto versado. Mas, em casa, principalmente, o sorriso e o carinho deviam encher sempre todo o espaço físico e intimo de todos os seus ocupantes.
É aqui que encontro o bálsamo compensador dos atropelos que sofro lá fora. Porque não há nada melhor que as consoladoras palavras que me dizes, muito baixinho, com os lábios colados ao meu ouvido.