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afonsonunes

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02 Ago, 2012

Heróis

 

Começo pelos nossos heróis olímpicos e, de uma maneira geral, por todos aqueles que militam em clubes, qualquer que seja a sua modalidade. Desportiva, administrativa ou dirigente. Tudo o que é desporto merece respeito por quem o pratica e por quem anda à volta dele.

O país tem o dever de apoiar todos os desportos, na medida em que vai poupar esse dinheiro na saúde dos portugueses. Porque, dizem, o desporto é uma fonte de saúde e um manancial de qualidades que dignifica e enobrece quem anda nele, exclusivamente com espírito de saudável competição.

São muitas as vozes que se têm levantado contra o estado a que chegou o desporto em geral, e as modalidades mais competitivas, em particular. O espírito de negócio, muitas vezes sujo, para não dizer abjeto, tornou-se numa realidade mais que condenável, largamente subsidiada pelo estado.

Num momento em que o estado não tem dinheiro para subsidiar formas gritantes de pobreza parece, no mínimo, escandaloso, que gaste balúrdios com quem, além de não competir com dignidade, ainda se permite querer luxos, bons prémios e tratamento que não ajudam nos sacrifícios pedidos aos cidadãos.    

Quem tanto enaltece esses heróis, devia antes olhar para os verdadeiros heróis do país: todos aqueles que, em lugar de palmas, recebem o desprezo de quem devia apoiá-los com um pouco de justiça. Porque justiça, nos cortes nos subsídios, como nos rendimentos, e na justa distribuição da riqueza, é coisa que não existe.

Passando para outros heróis. De cada vez que desaparece um daqueles políticos que muito contribuíram para a situação do país, todos os seus comparsas e descendentes, se apressam a enaltecer as fenomenais qualidades de tudo e mais alguma coisa. Que se lamente a perda de uma pessoa, tudo bem.

O que choca é ver heróis que, agora ou no passado recente, tiveram e, ou, ainda têm, altas ligações ao poder, arcando com mais ou menos culpas no cartório, venham clamar que sempre estiveram do lado, ou ao lado de quem parte, como que querendo ser incluídos nos elogios generalizados da ocasião.

Dizem depois que o país ficou mais pobre ao partir um desses heróis. Ironicamente, poderia dizer-se que o país foi empobrecendo à medida que foram desaparecendo as grandes figuras que nele predominaram. Mas, a verdade é que o país empobreceu mais com a vida do que com a morte dessas figuras.

É o mesmo que, ironicamente também, dizer que o país fica mais rico quando deixa de pagar reformas milionárias aos que sempre viveram faustosamente à custa do estado. Ou que o país também fica mais rico quando perde um trabalhador a quem nunca foi pago o justo valor do seu trabalho.

Se vivêssemos no mar, diríamos que todos lamentariam a morte de um tubarão, enquanto ninguém ficaria feliz por haver muito menos morte de entre o peixe miúdo diariamente comido. Porque o herói seria sempre o tubarão, o grande, o poderoso, o dominador tubarão.

Não vivemos no mar, mas em terra a lei é exatamente a mesma. Os heróis nunca são os que sofrem, mas aqueles que fazem sofrer. Porque o sofrimento não se inflige apenas através da violência física, pela brutidade ou pela necessidade de mostrar alguma espécie de heroísmo.

Era bom que nesta conjuntura que nos é imposta, todos os heróis bem pagos, os falsos e os verdadeiros, contribuíssem para que os heróis anónimos não pagassem a maior fatia da fatura de tantos heroísmos.