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afonsonunes

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05 Ago, 2012

O nosso mano

 

É um mano muito especial na medida em que nos protege de todos os males que diariamente pendem sobre a nossa cabeça, vindos de todos os lados e enviados por uma infinidade de conhecidos e desconhecidos inimigos, alguns dos quais disfarçados de amigos do peito.

O nosso mano não se deixa levar naquelas conversas do lixa-me tu, que depois lixo-te eu, pois as coisas que se aprendem de pequenino nunca mais se esquecem. E a maneira de falar é uma delas. Ele sabe que os eruditos estão sempre alerta, a ver se ele mete a pata na poça.

A verdade é que ele gosta de falar como povo, quando fala mesmo para o povo. É por isso que ele até nem se importa de, uma vez por entre outras, meter a pata na poça, não só para agradar ao seu dileto povo, mas para mostrar aos eruditos que não é só do lado deles que se está bem.

Aliás, se não fosse assim, estaria implicitamente a dizer que se estava marimbando para os seus manos que têm por hábito e por formação escolar, falar exatamente como ele fala. E sem fazer qualquer esforço linguístico que pudesse denunciar que estava a fazer frete a alguém.

O nosso mano faz questão de ser tão ou mais genuíno que aqueles e aquelas, corajosos e corajosas, que entram naqueles programas, em que têm de mostrar o que está à vista e o que trazem muito mal escondido atrás da orelha. Mas são genuínos, porque são eles próprios e não os trastes que se julga.

Anda agora na moda a chatice de repetirem aquelas frases mais piegas do nosso mano e também aquelas em que ele se está lixando para tudo aquilo que não interessa ao país, nem aos seus melhores inimigos. Porque os seus piores amigos, esses, estão-se nas tintas, como ele, para tudo e para todos.

Ele costuma dizer em privado, mas qualquer dia também o diz em público, que a vida está uma pêrra tão difícil, muito especialmente para ele, que por vezes lhe apetecia dizer, pirra para isto tudo. Só não o faz por uma enorme estima aos seus super dedicados empregados, para quem a vida é mesmo uma purra.

E só não é uma parra, porque já lá vai mais de um ano e de uva nem bago, o que é uma realíssima gaita pois, sem uva não há pinga e, sem esta, a vida é mesmo uma pôrra de todo o tamanho. E nós, os manos unidos, assim, jamais poderemos dizer que a vida está mesmo porreira.

O nosso mano diria que esta do, porreiro, não é dele. E, longe dele, querer apropriar-se do nacional porreirismo que já fez história. Porque a história do nosso mano preferiria, nas atuais circunstâncias, dizer com toda a propriedade, vai-te lixar, pá.

Sim, porque de porreiro, agora, nicles. Mas, valha-nos ao menos isso, estão satisfeitos os eruditos, porque de pontapés na gramática ficaram eles fartos no passado. Agora, que nem a conjuntura os incomoda, nem tão pouco o estúpido acordo ortográfico, até acham que a genuinidade linguística é um dom.

E o nosso bom e esclarecido mano, pode não ser um gajo porreiro para toda a gente, mas é um tipo que sabe o que diz e para quem o diz, tal como sabe o que faz e a quem o faz. E quem disser o contrário mente. E quem mentir, nunca mais poderá dizer que é genuíno como o nosso mano.

Que ainda não disse nada que pudesse surpreender os amantes do linguarejar do povo. Mas, as coisas evoluem e não tardará que a gente oiça: que pôrra de vida esta. Não há meio de chover e a gente está cada mais seca e o nosso mano cada vez mais erudito.