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afonsonunes

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06 Ago, 2012

A tia Candi

                                                                                                                                                   

Em boa verdade a tia Candi tem mais cara de avó que de tia, mas isto não quer dizer que lhe esteja a chamar velha, pois ela tem uma conversa que faz inveja a muitas sobrinhas e até a algumas netas. E então, quando abre aquele sorriso de quem já sabe muito, é um verdadeiro espanto.

O grande problema dela é que anda constantemente preocupada com a justiça, que ela afirma perentoriamente que há, enquanto a família toda lhe garante que não consegue vê-la, nem ao longe, nem ao perto. À justiça, obviamente, porque a tia está sempre muito visível para toda a gente.

Um destes dias ficou mesmo no topo da visibilidade ao afirmar que estava revoltada, ou muito revoltada, com o facto de se ter apercebido que havia alguém que desconfiara das suas boas preocupações e resolvera insinuar que ela até era capaz de ter mesmo algumas más preocupações.

Ora a tia Candi não é pessoa para se ficar, quando alguém que não conhece, se arma em juiz dos seus atos. Porque ela sabe que atua sempre de forma que seja bem ajuizada, mesmo por juízes que, em muitas ocasiões, já tenham demonstrado que as suas palavras não revelam um estado de perfeito juízo.

A revolta dela radica na descoberta que lhe fizeram ver agora, de que aquilo que ela julgava ter descoberto há muitos anos, para aí mais de meia dúzia, talvez, afinal, foi tudo um desejo de procurar, procurar e voltar a procurar e nunca mais encontrar, aquilo que ela julgava mais que encontrado.

É evidente que ela sabe perfeitamente o que é um sonho de procuração e um desejo de ajuizamento. Porque ela tem a noção exata de que a sua vontade não é julgável, como a vontade das pessoas que pensam e julgam ao mesmo tempo, como fazem os juízes que constituem a opinião pública.

É evidente que a tia Candi é a revolta em pessoa, na medida em que tem a noção de que se fosse ela a mandar, a justiça seria, toda ela, feita de outra maneira. Mas ela é apenas uma sonhadora sempre metida no desejo de demonstrar como seria fácil resolver os problemas com que ela perde o sono dia e noite.

Portanto, ela encarna na perfeição, a revolta de quem é uma criadora de ideias que depois ninguém aproveita. É verdade que ela está de fora e não pode meter o nariz lá dentro, o que lhe causa alguma sensação de impotência que pouco a conforta, em relação ao muito que lhe revolta a alma.

Mas, que fique bem claro, a tia Candi está revoltada com a justiça que há, mas nunca disse que não há justiça. Ela garante que há. Não há é aquela que ela tem dentro da sua cabeça, bem recheada de ideias, e rodeada por uma aura que lhe turva a vista e, por vezes, lhe cega a mente sobreaquecida.

E esta tia, que bem pode já ser avó, ainda tem esperanças, muitas esperanças, de que a sua cabeça terá um dia o prémio da cabeça de um alambique depois de terminada a sua faina: esvaziada a caldeira, vai-se a temperatura e a cabeça recolherá à paz e ao bem merecido descanso.