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afonsonunes

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Há palavras que não existem mas algum dia teriam de ser inventadas, nem que resultem de uma calinada gramatical de um qualquer ignorante da língua de Camões. Mas, isso não significa que seja sempre uma descoberta inconveniente, ou um lamentável pontapé na gramática. É assim que aparecem modernismos a toda a hora.
O termo papatuga é despretensioso e inofensivo, puramente imaginário, inserido num acolitado que até podia ser o grande acolitado portuga, onde o sol brilha, o mar bate na rocha e quem se lixa é o mexilhão. É também neste acolitado que se ouve falar muito de bola, como se fosse uma religião, altamente hierarquizada, com muitas rezas, terços e até os seus misteriosos milagres de vez em quando.
Obviamente que o acolitado tem de ter acólitos, senão não passaria de uma ficção de uns tantos ateus invejosos e intriguistas, facilmente dominados pela fluente e sábia retórica do papatuga, que fala um dialecto próprio da sua condição de líder intocável, objectivamente protegido pela bíblia papatugal, através da sua imunidade extensiva a todas as áreas e a todas as competências deste acolitado sempre em ebulição.
Os acólitos constituem-se muitas vezes em poderoso e devastador exército, por vezes, autêntica tropa de choque, cantando em coro os hinos que o papatuga mais aprecia e necessita para as suas inspiradas sessões de elevação do acolitado, que ajudará à manutenção do espírito de comunhão da táctica, dentro da ética guerreira que, por sua vez, fará com que ninguém se atreva a intrometer-se nos seus domínios.
As funções do papatuga não foram aprovadas em assembleia-geral do acolitado, mas nem por isso os acólitos se sentem diminuídos nos seus direitos. A única coisa que lhes interessa é que ele continue a papatugar, de forma que se mantenha no vértice da pirâmide: incisivo, mordaz, venenoso, incólume, impune, dominador, inatacável, ganhador, pré special one, movido… e tudo o mais que se possa imaginar num acolitado mais que perfeito.
Certamente que já todos sentiram as crises que os governos nos trouxeram, as crises dos bancos e dos banqueiros, as crises das secas ambientais, as secas que os políticos nos pregaram mas, principalmente, as crises que vão nos bolsos vazios. Apesar dos malefícios dessas secas, o céu tem de manter-se sempre azul. Muito mais azul que o espírito dos que perdem todas as semanas.
Porém, haja alguém que diga que há crise no acolitado, ou que o papatuga tem algum probleminha, nem que seja de consciência. A vida é tudo menos cor-de-rosa, excepto a vida do acolitado e do seu papatuga.
Mas, cuidado, muito cuidadinho, que isso é que nunca se pode dizer.