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afonsonunes

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08 Ago, 2012

A palha de Abrantes

 

Ao que tudo indica a palha de Abrantes começou por ser a palha do Alentejo que por ali passava a caminho de Lisboa, ao que dizem, destinada aos estábulos onde se acomodavam as bestas da capital. Que já então, seriam muitas, dada a quantidade de palha que os alentejanos forneciam.

Os anos passaram e a palha da terra quente deu lugar à de Abrantes porque, segundo dizem, valeu a pena passar a ser burro para saborear essa gulosa palha abrantina, hoje procurada por gente que de burra não tem nada, apesar de algumas exceções que por ali passam, ou da cidade se lembram com algum zurro.   

E, também ao que parece, Lisboa já não tem bestas nos estábulos, ou se ainda por lá anda alguma, deve comer mais ração que palha alentejana e não aprecia a palha de Abrantes. Mas, como em qualquer lugar do planeta, os burros ainda mexem, e vão continuar a mexer.

Uma coisa é certa. A palha continua a circular e já não tem necessidade de passar por Abrantes, para ir do Alentejo para Lisboa. Tal como os burros também podem atacar Abrantes, vindos da capital, sem terem nada a ver com o Alentejo. São as mudanças que o tempo dá às alimárias.

Ora adiante que se faz tarde. Abrantes é uma cidade de muito sol. Daí que fira a vista a quem a veja com duas grossas palas ao lado dos olhos. Com a agravante de gostar muito mais da luz artificial, a chamada luz elétrica que, assim quis o destino, passou a ter os chineses a dar ao botão.

Contudo, como os chineses têm o braço curto e não chegam ao interruptor, têm alguns portugueses um bocadinho mais altos, em estatura, obviamente, que fazem isso por eles. Acendem e apagam a luz, quando o sol não lhes convém, porque o sol é coisa que, para chinês, não dá dinheiro.

Consequentemente, também o não dá àqueles portugueses que já ganharam o hábito, até porque têm essa obrigação, de andar de olhos em bico frente a quem lhes ponha obstáculos ao consumo da sua energia, que é frontalmente contra as energias dos outros que, dizem, são muito mais limpas.

Na terra da palha de Abrantes a doçaria parece ter azedado com a chegada de um barão que logo se notou não ter nada a ver com a doçura laranja, nem com as energias pró-chinesas, todas elas movidas quase inteiramente pelo sumo dos citrinos espremidos por mãos totalmente alaranjadas.

Ao que dizem os entendidos, o barão também não se acomoda no amarelo do limão, preferindo o vermelho, como repouso do seu olhar e o combate do seu coração. Naturalmente que tais preferências, logo terão decretado uma guerra santa contra a palha de Abrantes que os burros detestam.

Como contam as gentes de Abrantes, vale a pena ser burro só para ter o prazer de comer a sua palha. Mas esquecem que há outras bestas mais complicadas que os burros, paradoxalmente, sediadas em Lisboa, embora haja a ideia de que elas vivem mais nos meios rurais. Nem tudo o que parece é.      

Mas, esta história, que além do vermelho como antagónico do laranja, ainda contem o vermelho do Benfica, predicados que já tiveram os seus momentos áureos, no tempo em que palha, era mesmo palha alentejana. Hoje, os que mais comem a doce palha do poder, são os que mais se azedam com Abrantes.

Cá para mim, também anda ali a mãozinha de quem não perde uma de bota abaixo, sempre falando de poupanças de milhões que não se veem e demonstrando umas raivinhas que o país vai pagando muito caras. E o consumo de palha tem mesmo tendência para aumentar.