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afonsonunes

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09 Ago, 2012

O país mudou mesmo

 

Sinceramente, ainda não tinha ouvido falar de medalhas, tais as preocupações dos portugueses com outros assuntos muito menos importantes. Somos assim por natureza. Já devíamos ter previsto que o assunto medalhas tinha de surgir, e todos nós tínhamos de acordar para uma realidade bem diferente.

Até ontem, houve realmente um alheamento incompreensível das possibilidades dos nossos potenciais heróis e houve até quem tinha a obrigação de ter feito umas palestras antes e durante, sobre as relevantes consequências que adviriam para o país, após a conquista da primeira medalha.

Por exemplo, se a primeira medalha tivesse surgido no primeiro dia dos jogos, era um incentivo de tal ordem que todos, ou quase todos os dias, viria uma. Era o inevitável efeito de contágio. Efeito que também não deixaria de se fazer sentir, na nefasta e já tão periclitante auto estima de todo o povo português.

Agora imagine-se o estado de espírito que o país ganhou com a primeira, quando o podia ter ganho há uma data de tempo. As energias positivas, bem podiam e deviam ter substituído as energias negativas entretanto acumuladas. Essas energias bem podiam ter mais que duplicado nos corajosos medalhados.

Tenho a certeza de que, no Algarve, houve veraneantes que, na hora da medalha, nem foram a banhos, só para se agarrarem aos telemóveis e aos computadores, para mandarem as suas mensagens que, em boa verdade, como prova de confiança, deviam ter começado a enviar muito mais cedo.

Porque a medalha, símbolo do nosso prestígio no mundo, tinha de aparecer, nem que tivesse de ser pedida a especial intervenção dos nossos Patilhas e Ventoinhas, para a encontrar, interrompendo-lhes as férias algarvias, que acumulam com funções de vigilância de costas onde as multidões são um perigo permanente.

Graças à justiça divina, não foram necessárias medidas excecionais, porque a medalha apareceu mesmo e, certamente que não virá só. Agora, toda a elite dos costumeiros discursos, quererá ter um herói para abraçar e uma medalha para exaltar. Como são muitos, não podem concentrar-se todos na mesma.

Mas isso será o depois, certamente, muito mais animado que o antes e o durante, em que a modéstia geral abafou entusiasmos que teriam sido mais que espetáveis e mais que úteis para a criação de uma benéfica loucura coletiva. À qual até nem os monótonos noticiários se dignaram aderir. Medalhas foi a palavra mais ignorada.

Agora, porém, tudo foi diferente. Medalha, medalha, medalha, ouvia-se por todo o lado. O país reencontrou-se consigo próprio. Os portugueses correram para os televisores e abriram os rádios dos carros. Desataram a falar nos telemóveis ao volante, esquecendo que a GNR estava à espreita. Não faltaram multas.  

Gaspar sorriu, pelas medalhas e mais ainda pelas multas. Dr. Relvas só não se meteu a caminho de Londres, com medo dos cartazes que há por todo o lado. Sem doutor. O Algarve, só não viu ir os mais ilustres, importantes e rentáveis turistas, porque as diárias foram pagas antecipadamente e não havia modo de as reembolsar. 

Mas a agitação comunicacional foi intensa, a condizer com a subida do prestígio do país lá fora, do esquecimento dos problemas cá dentro, da descida dos juros da dívida, da subida de uns e descida de outros nas sondagens e, inevitavelmente, a rendição dos mercados à nossa capacidade de festejar medalha.    

Agora, como recompensa, o menos que se espera do governo, é a declaração de feriado nacional, em 08/08 de cada ano, comemorativo da medalha que salvou o país. E também para amenizar o efeito catastrófico da abolição dos outros.