Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

 

É dos livros. Quando se perde qualquer coisa há que procurar exaustivamente o que foi perdido e há que proceder a todas as procuras possíveis no sentido de obter do, ou dos perdedores dessa coisa, todos os pormenores e por maiores que ajudem a deslindar o mistério do desaparecimento.

O que surpreende é que as coisas desaparecidas nem sequer sejam procuradas por quem as tinha à sua guarda. E nem sequer explique como e quem tinha obrigação de as guardar. Mais surpreendente é o facto dos que procuram o desaparecimento não perguntarem aos responsáveis por essa coisa o que pensam da coisa toda.

Toda esta longa, longa história, parece ter vindo das profundezas do mar, onde há silêncios que nem os peixinhos sabem interpretar. Há uma canção muito velhinha que diz, ‘ foi o peixinho mar’. Já não me lembro de mais nada, mas as coisas que se perdem em terra, certamente, que não se procuram no fundo do mar.

Certo, certo, é que não se pode aceitar que a secção que devia ser de ‘perdidos e achados’ se conforme com a supressão dos achados e se fique apenas pelos perdidos. Que é como quem diz, pronto, não queremos cá achados e está tudo dito. Mas, lá no fundo, no fundo, não haverá perdidos nem achados, mas desviados.

Porque isto não é um poço sem fundo. Isto é um mar alteroso onde os submarinos, que deviam navegar a rasar o fundo, bateram mesmo no fundo e, com todos os rombos provocados, a água do mar engoliu os documentos dos ditos e agora nem sequer a polícia marítima pode passar as multas das infrações cometidas.

Polícia marítima que também ficou proibida de falar com os comandantes dos submersíveis, facto tão insólito que até parece que morreram todos no local onde os documentos perderam a vida e, provavelmente, ali foram sepultados. Mas, sabe-se de fonte seguríssima que os comandantes andam aí, vivinhos da costa.

Tanto assim é que eles falam de tudo, comentam tudo, aconselham tudo, sabem mais que ninguém, mas não falam de coisas tristes, tipo submarinos que foram ao fundo, ou de documentos que podiam ter ficado a boiar e serem salvos, tal como se salvaram a eles próprios. Mas, o mar tem segredos que nunca mais se deslindam.

Não vais ao mar Paulo, que a Polícia Marítima pode pedir-te os documentos da tua embarcação. Certamente que lhes dirias que os perdeste. Ou que os deixaste em casa. Como és um caso de credibilidade exemplar, eles esqueceriam o incidente depois de um forte abraço de amizade e admiração.

Portanto, Paulo, podes continuar a ir ao mar. Porque é no mar que tu tens os teus peixinhos protetores que escondem tudo o que alguns homens, mais coscuvilheiros que muitas mulheres, gostavam de saber. E é no mar que tu te refugias quando há tempestades em terra. Ao contrário das gaivotas, claro.

Tu nunca gostaste de gaivotas. Elas só gostam do mar para comer os teus amigos peixinhos que andam no baloiçar das ondas. As gaivotas, de papo cheio, à noitinha vêm para o areal das praias, enquanto os peixinhos em cardume impenetrável, tapam os buracos onde jazem os documentos escondidos e nunca procurados.   

Um dia, não se sabe quando, alguém pedirá responsabilidades aos peixinhos que andaram anos a cometer o crime de ocultação e condecorará os procuradores por serviços relevantes prestados ao amigo dos peixinhos. Resultado: peixinhos condenados. O amigo e procuradores, heróis no grande dia nacional das medalhas.

Então, alguém dirá comovido mas muito feliz, que esta cerimónia simboliza na perfeição o orgulho que todos nós temos em homenagear aquele que realmente ‘foi o peixinho do mar’. Aquele que nos ensinou a nadar. E a esconder. E a desviar.