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afonsonunes

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15 Ago, 2012

Arroz esturrado

 

Da longa, inédita e excelente lição de política caseira ontem pronunciada no parque aquático da Quarteira, retive como ideia predominante aquela referência, quase no final, ao tempo já excedido para a duração do mesmo. E, como consequência desse excesso, a desconfiança no estado do arroz já farto de esperar.

A primeira conclusão que retiro dessas alusões, diz respeito ao inegável conhecimento de que o orador deu provas, no que toca a assuntos culinários. E, dentro desses, do complicado processo de cozinhar o arroz, respeitando os tempos de cozedura, mas também o tempo de o pôr na mesa e depois comê-lo.

Desrespeitadas essas regras, que foi o caso conforme se ouviu, o arroz fica seco, e mesmo esturrado pois, como se sabe, fica agarrado ao fundo do tacho, queimado, e largando um cheiro que não tem nada a ver com os deliciosos temperos que deviam fazer crescer água na boca dos entusiastas pagantes que foram à festa.

Imagino que o cheiro a esturro andou por ali com uma intensidade que o próprio orador não se dispensou de o trazer ao seu longo discurso, pensando mais, julgo eu, na quantidade de marisco estragado, que no arroz esturrado. Mas, que o cheiro a esturro incomodou, disso não pode haver dúvidas.

Surpreendente é o facto de, num parque aquático, onde a água abunda, se ter desviado esta para o discurso, deixando secar o arroz. Imperdoável para quem, em teoria, conhece esses segredos todos e, de modo inequívoco, faz deles a mais cabal declaração de que ninguém como ele sabe do que fala.

Mas, estou convencido de que, tarde, mas com grande apetite, o arroz lá foi abaixo, porque, uma coisa é o gosto, outra bem diferente é o cheiro que anda à volta. E quem come por gosto não cheira, pois até se pode estar a estragar o apetite aos pagantes do lado, se veem que ficamos a olhar para o apetite deles.

Também me surpreendeu, e de que maneira, o facto de que o orador, sempre tão pouco preocupado com eleições, que se lixem elas, disse em tempos, tenha agora, com anos de antecedência, iniciado a sua campanha com tanta ou mais ambição do que aquela que o levou ao poder. E a gente a julgar que ele não queria ganhá-las.     

Já menos surpreendente, por habitual, foi o seu poder de ataque se resumir a chutar bolas para trás, com a consequente desvantagem de andar a fazer auto golos, pensando que assim vai ganhar a bola de prata. Está visto que o futebol é um dos seus pontos fracos. Há quem esteja à espera que ele mude de modalidade.

Por exemplo, que se dedique ao jogo das escondidas, onde parece ter potencialidades mais que suficientes para fazer uma carreira de mais sucesso que a de ponta de lança onde, mesmo sem grande concorrência, pode ter um sucessor com currículo igual ao que ele tinha, quando se iniciou nesta modalidade.

Mas o Pontal assentou este ano num local dito de parque aquático. Um verdadeiro turbilhão de água, como é natural. Portanto, água não faltou, exceto para o arroz e para o marisco, que deve ter morrido com falta de oxigénio. Porém, unanimemente reconhecido, foi o calor e o entusiasmo do comício, a puxar para um banho frio.

Dada a frieza e o cheiro dominante, fatores aos quais eu tenho uma imunidade gelada, permito-me assumir o ritmo que o Pontal devia ter tido. Portugueses, já que não têm cultura nenhuma, venham comigo para a doce e perfumada cultura da dificuldade. Porque a outra, a da facilidade, tem este enjoativo cheiro a esturro.