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afonsonunes

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16 Ago, 2012

Culturas

 

O nosso atual chefe do executivo tem falado muito da cultura da facilidade, deixando sempre no ar uma acusação disfarçada, ou encoberta, ao anterior executivo, continuando a atribuir-lhe, nas suas veladas alusões a despesismo, todas as culpas pelo que o país está a atravessar.

Bastaria olhar para toda a Europa e não só, para verificar que a cultura do despesismo não nasceu, nem se desenvolveu só em Portugal. A teoria de gastar para que as gerações futuras paguem, a ser aplicada no sentido cego que agora se lhe atribui, faria com que tivéssemos de louvar agora o tempo da nossa ditadura.

Porque, levando a sério essa regra, que até pode já ter sido de ouro, ela deu-nos aquilo de que ficamos fartos nesse tempo: o obscurantismo. Andámos, e ainda andamos, muito atrasados em relação à Europa, porque se preferiu armazenar barras de ouro em lugar de promover o desenvolvimento do país e do seu povo.

Hoje, com o tal despesismo, temos um país relativamente aproximado aos europeus e, sem dúvida, crianças e cidadãos mais integrados numa cidadania que pede meças a muitos europeus em todos os aspetos. Devemos dinheiro, é verdade, mas temos já um nível de dignidade aceitável e isso não há dinheiro que pague.

Podemos transmitir dívidas aos nossos filhos e netos, mas também lhes entregamos muito mais que a fome, o analfabetismo e uma mobilidade que vai muito para lá do transporte de burro, de carroça ou de carro de bois. Se eles tiverem de pagar uma parte dessas dívidas, em troca, não terão de fazer o que já está feito e será deles.

Portanto, a cultura da facilidade, grosso modo, é um chavão que só serve para ocultar o fausto da vida que levam os seus mentores, contrastando com a cultura da dificuldade que tão ardorosamente defendem, mas que não aplicam a si próprios. Porque a cultura da dificuldade serve apenas para aumentar a facilidade deles.

Depois, há aquela cultura de que os ‘dificultistas’ nunca falam. Que é a cultura do gamanço. Conclui-se daí que a cultura da dificuldade que nos impõem, vai alimentar o recheio do pote que depois será esvaziado por aqueles que praticam a tão vulgar, protegida e impune cultura do gamanço. Porque o maior, são eles que o praticam.           

Quem julga que somos um povo sem cultura, está redondamente enganado. É bem conhecida a cultura da mentira que anda sempre enrolada com a cultura da verdade. Enquanto a cultura da mentira cresce desalmadamente, a cultura da verdade esvai-se, como se esvai a cultura da justiça.

É sabido que a verdade só poderia sobrepor-se à mentira, se houvesse uma cultura séria, capaz de sobrepor a primeira à segunda, sempre que os mentirosos quisessem impor a sua força, a força do seu poder ou do seu dinheiro, à verdade de quem a adotou como lema da sua vida.

É neste emaranhado de culturas que nos enredam a cada discurso com que nos presenteiam. É a cultura da hipocrisia. Dizem-se algumas verdades para lhes misturar muitas mentiras que não são capazes de nos dizer claramente. Porque fazem parte das novas técnicas e das novas culturas.

Estas, sim, são as facilidades deles, contra as nossas dificuldades. São as facilidades que eles distribuem agora, mas que remetem para o passado como prática de outros. Seria bom que nos dessem agora algumas facilidades das suas, e nos aliviassem de algumas das nossas dificuldades, tomando-as para si.

Se a tão reclamada mudança de políticas não surte qualquer efeito, ao menos que nos concedam a graça de uma mudança de culturas. Porque a cultura geral, aceita as dificuldades repartidas, desde que as facilidades também sejam repartidas. Só que, até agora, a cultura privada não é a cultura geral.