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afonsonunes

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17 Ago, 2012

O meu bruxo

 

Já vai para um ano e tal que tenho um bruxo a quem pago um pouco menos que o ordenado mínimo e não lhe passo qualquer recibo, pois as coisas não estão para folias. Sei que não devia estar a escrever isto aqui, pois o fisco não me perdoará, se acaso lhe der para dedicar uma espreitadela a estas linhas.

Ora isso é muito menos provável, que o meu bruxo acertar em uma outra previsão que tem feito em relação à minha vida. Aliás, ele aconselhou-me a não ter receios do fisco, pois se eles não veem quase nada do que se passa no país, como haviam de ver um escrito meu, no meio de tantos muito mais visíveis.

O meu bruxo até é um sujeito bastante simpático tendo em conta que o ordenado que lhe pago nem dá para ele comprar os instrumentos de previsão de que necessita, quanto mais ter de perder tempo a manifestar simpatia a um patrão tão forreta como eu. Mas ele sabe o motivo por que sou tão forreta.

Pois ele sabe que eu ganho mais do que o ordenado mínimo, mas depois de subtraídos os descontos que o meu bruxo não previu no devido tempo, mais o ordenado que lhe pago, fico mesmo com menos que o ordenado mínimo. E até com menos que o meu bruxo. Como dizia o outro, não me chega para as despesas.

Estou mesmo a pressentir as dúvidas que estou a suscitar sobre a necessidade de ter um bruxo às minhas ordens. Não é que seja eu a mandar-lhe fazer as previsões que eu quero. Mas, é ele próprio que me pergunta o que é que eu quero que ele preveja para mim e, eventualmente, para previsões alheias que me interessem.

Um dia destes perguntei-lhe o que pensava ele sobre o ano de dois mil e treze. Fui logo avisando que tivesse cuidado com previsões precipitadas, uma vez que se tratava de ano que tem nas suas entranhas o número treze. Depois, também o preveni de que os bruxos espanhóis já tinham falado comigo.

Ainda lhe fiz ver que não me viesse com aquelas tretas de que podia comprar isto e aquilo, porque a minha situação económica ia melhorar bastante. Mas, sobretudo, avisei-o de que, fossem quais fossem as suas previsões, não estava autorizado sequer, a pedir aquele aumentozinho com que sonhava há muito tempo.

 O homem, o meu bruxo, claro, ainda ficou à espera que eu lhe fizesse mais avisos, mas ao ver que eu já estava calado, sorriu, mas sorriu mesmo abertamente. E foi ele que passou a avisar-me. Disse que eu não podia mais, passar a vida a lamuriar-me e tinha de convencer-me de que ter um bruxo como ele era um privilégio.

Garantiu-me que não era um bruxo qualquer. Um daqueles bruxos que levavam os patrões à ruina por causa de previsões ruinosas. Que não queria aumento de ordenado, pois nunca pensou em ganhar mais que eu. Mas, se fosse preciso, estava completamente disponível para fazer o dobro das previsões e até melhorá-las.

E a grande novidade, surgiu de um modo surpreendente. Abriu ainda mais os olhos e anunciou que o ano de dois mil e treze ia trazer-me o fim das minhas restrições, as quais passariam a ser excedentes. E acrescentou que, em lugar de andar a contar os cêntimos no dia-a-dia, podia pagar tudo com notas e ainda receber notas em troco.

Aí não me contive. Oh bruxinho despesista, como é isso possível? Julgas que eu não sei como era dantes? Queres voltar ao antigamente em que se comprava tudo o que nos apetecia? Queres que eu acredite tanto nas tuas previsões, como nas minhas facilidades, ou julgas que não sei o que são dificuldades?

Ter um bruxo que nos adivinha coisas boas para o ano que vem, é realmente um privilégio. Ainda que eu não acredite no que me diz, sinto que ele, realmente, não quer aumento de ordenado. Mas quer continuar a fazer-me previsões, se possível, para toda a vida. Pelo menos, para já, ele bem está a fazer por isso.

Não sou eu que vou desiludir-te, bruxinho meu. E daqui te digo, sinceramente, com todo o meu reconhecimento e com a garantia de que não vais perder o emprego, podes contar comigo, bruxinho amigo.