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afonsonunes

afonsonunes

18 Ago, 2012

Crescem os sinais

 

O meu pensamento não consegue sair da África do Sul nem dos trinta e tal mineiros mortos. A minha primeira reação foi de repulsa pelo procedimento de autoridades que têm por missão promover a paz e a proteção dos cidadãos e nunca o massacre através de disparos de metralhadora que não dão qualquer hipótese de defesa.

É muito doloroso assistir à matança indiscriminada de pessoas que lutam pelos seus direitos, por agentes da autoridade que, cumprindo ou não ordens superiores, não deixam de ser pessoas e não deixam de ter consciência, para meter nela as consequências de um ato que não durou mais que uns segundos. 

Mas, que certamente os vai marcar por anos, ao pensarem nos mortos e nas pessoas que deles dependiam, famílias onde há mulheres, idosos e crianças que ficaram sem o apoio de quem lhes garantia o sustento e o equilíbrio familiar. Marcada ficará também a consciência de quem ordenou tal massacre.

Com o desenvolvimento das notícias que foram chegando, os factos foram ganhando novos contornos. Segundo elas, os mineiros não se encontravam numa luta sindical pacífica e legal, na medida em que estavam armados e manifestaram claramente às autoridades os seus intentos de não permitirem ser controlados.

Não sei se os motivos que levaram essas autoridades a intervir eram ou não legais e justificados. Em princípio, tenho de admitir que as autoridades não partem ilegalmente para uma qualquer intervenção. Quando muito podem, no calor dessa intervenção, cometer excessos que não tenham cobertura legal.

Do mesmo modo que vai sendo cada vez mais frequente os amotinados de qualquer espécie, dificultarem o cumprimento da missão policial, levando a que sejam os elementos que procuram repor a ordem, a sofrer agressões e insultos, por vezes graves, exatamente para não serem considerados agressores.

O caso do massacre dos mineiros também podia ter sido visto ao contrário. Se a polícia não disparasse e se deixasse envolver por eles, poderíamos ter tido um massacre de polícias, mortos à catanada, ou à paulada, ou até a tiro. Pergunto a mim próprio o que estaria eu a pensar neste momento. O mesmo que pensei antes.

A violência não tem lado quando há pessoas contra pessoas. E cada vez há mais pessoas contra outras pessoas, porque cada vez mais há pessoas que não respeitam os direitos de outras pessoas, humilhando-as e obrigando-as a ser violentas para se defenderem, ou até para garantir a sua sobrevivência.

Porque não se pode viver, ou sobreviver quando, sistematicamente, se vão cortando todos os direitos básicos às pessoas em dificuldades, enquanto quem os corta faz gala em mostrar toda a sua gula de enriquecimento escandaloso, quando não mostrando os seus métodos cínicos de massacrar a pobreza.

Da África do Sul vem mais um sinal de que o mundo caminha na perigosa corda bamba em que aqueles que tudo podem, começam a não ter outro meio de se defender que não seja matar. Enquanto os que não têm maneira de sobreviver, não veem outro meio que não seja matar os seus algozes.

Terrível este dilema que cada vez mais se manifesta, através de mortes violentas de pessoas inocentes, por desequilibrados de qualquer espécie, que não conseguem compreender esta sociedade. Casos que são antecipadamente detetados, mas que ninguém os toma a sério até à consumação da violência.

Violentos não são apenas os criminosos a quem ninguém dedicou um mínimo de atenção antes de o serem. Violentos são os que lhes viraram as costas e tinham obrigação de olhar para eles e ouvi-los olhos nos olhos. Violentos são todos os que abusam do seu poder e mandam as polícias serem violentas.

As polícias, porém, não podem deixar-se matar, ou serem espancadas e ofendidas, perante os violentos que já não são capazes de se controlar. Em última instância, os mais violentos de todos, são todos os responsáveis de todos os países, de todo o mundo que não são capazes de criar um mundo menos desigual.

Da África do Sul vem mais um sinal inequívoco de que nem esses responsáveis estão a coberto da violência que cada vez mais os vai cercando.