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afonsonunes

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20 Ago, 2012

Lógica arbitral

 

Fiquei desagradavelmente surpreendido pelo inesperado anúncio de que ‘as arbitragens em Portugal vão piorar esta época’. A fonte inesgotável de notícias dominicais nas quais não temos outro remédio senão acreditar, reside no professor que a TVI nos oferece de borla e com uma credibilidade total.

Estou a falar em meu nome pessoal, mas penso que o plural que emprego, se justifica plenamente, pois bastaria pensar no cachet por ele auferido para retirar quaisquer dúvidas ou contestações. Nessas circunstâncias, ele será um dos árbitros mais credenciados da opinião portuguesa. Que, logicamente, vai piorar.

Foi ele que disse que as arbitragens vão piorar esta época. Como já tenho referido por várias vezes, e a propósito de vários assuntos, o meu poder de interpretação do que vejo e oiço é um tanto limitado, daí que cometa erros de palmatória quando, também eu, me considero um árbitro, embora de escalões bastante inferiores.

Mas, além de mim e do professor, perdoem-me a presunção de me juntar a ele, há árbitros para todos os níveis e para todas as atividades. Certamente que se enganaram, todos aqueles que já me estavam a ver de apito entre os lábios a dar umas sopradas valentes e sibilinas de arrepiar os ouvidos.

As arbitragens, dito assim, inclui, logicamente, todas as atuações de todas as espécies de árbitros de Portugal. Ora, o árbitro superior do país é o nosso presidente. Evidentemente, a minha opinião é bastante clara. Não acredito, mas não acredito mesmo nada, que a sua arbitragem vá piorar esta época. Óbvio.

Temos depois a arbitragem governamental, cuja época crucial dizem que começa agora. Há um ano e tal que estes árbitros andam a dizer a mesma coisa. E são eles a dizer que estão a fazer arbitragens perfeitas, imparciais e geradoras de resultados justos e unanimemente aceites por todos os adeptos de todos os clubes políticos.

É perfeitamente compreensível que também haja no governo, árbitros de vários níveis. O primeiro, tinha de estar mesmo no primeiro nível, até para dar o exemplo aos restantes. Sobretudo, àqueles que assinalam penaltis a mais e aos que não assinalam os penaltis que deviam assinalar. Mas, são erros humanos, claro.

Pela minha parte todos têm o meu apoio, a minha compreensão e a minha solidariedade, como acontece com todos os cidadãos deste país duzentos por cento solidário. Só quem nunca teve oportunidade de tanto e tão bem servir o seu país poderia, eventualmente, pensar que ainda há maus árbitros.

Sobretudo, todos eles têm uma pedagogia exemplar, mesmo os menos diplomados ou os menos dotados, ou ainda os mais justamente remunerados ou subsidiados, sabem perfeitamente levar aos adeptos, a devida justificação para os seus atos governativos ou mesmo um ou outro de maior desgoverno. Normal.

Sobre os outros árbitros, ah pois, os tais, parece que já ficaram dúzias de penaltis por marcar logo no primeiro domingo, mas isso é normal, quando não se marcam penaltis a mais. Agora me lembro. Se calhar era a estas arbitragens que o professor se referia. Se assim for, dou a mão à palmatória, como ele faz por vezes.

Gostei muito daquele livre direto que o árbitro professor marcou a favor do árbitro PM, quando este mentiu honestamente, mas foi bem corrigido pelo árbitro auxiliar canadiano. Um exemplo de espírito de equipa e de rigor, correspondente a uma boa defesa para canto. Dar ânimo ao povo que, digo eu, bem precisa ser enganado.

Porque não há nada melhor que viver sem preocupações e ser feliz. E não se vê outra maneira de conseguir tal desiderato para as gentes do povo, que não seja tirar-lhe o pão e dar-lhe uns sedativos à base de mentirinhas administradas segundo os mais eficazes métodos pedagógicos dos árbitros sem apito.

Fica assim devidamente esclarecido que a melhor lógica arbitral, é piorar as arbitragens, com o benevolente fim de manter o povo animado com os resultados. E eu, como gosto sempre de ver o povo com o ânimo em cima, cá estou para aplaudir a baixa da qualidade de todas as arbitragens, nesta e em todas as épocas.