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afonsonunes

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21 Ago, 2012

Os novos camaradas

 

A palavra camarada é das tais que causa engulhos a muita gente e ninguém estranhará se eu disser que muitos dos políticos atualmente no poder fizeram grande parafernália quando, especialmente em comícios, atacaram a esquerda que, segundo eles, vai do PS ao Bloco. Todos viciados, claro, no odiado socialismo.

Não é minha intenção fazer aqui juízos de valor entre esquerda e direita, ou entre camaradas e companheiros porque, no meu modesto entender, gostos cada um tem os seus e ponto final. O que me leva hoje a abordar esta matéria, não é o gosto de ninguém, mas a aparente mudança de algumas mentalidades e seus discursos.

Realmente custa a entender como se ataca o socialismo em geral, de maneira tão feroz e, particularmente o Partido Socialista, sabendo-se que, em boa verdade, de socialista só tem o nome, pois está muito mais próximo, e integrado, da família social -democrata europeia. Mas, só o nome, já causa náuseas a muita gente.

Mas, muito mais custa a entender, que aqueles que mais náuseas têm demonstrado ao longo do tempo, são agora os mais fervorosos defensores das melhores e mais íntimas relações com a China, sabendo-se que espécie de regime lá vigora e com que objetivos se estão a dedicar a esta tão florescente amizade.      

Causa-me alguma perplexidade o entusiasmo com que oiço os novos camaradas que os chineses já conquistaram aqui, apesar de descontar a circunstância de serem os seus patrões, pois ficaria muito mal que os empregados tratassem com menos cortesia, os donos do capital que os mantêm nos seus riquíssimos lugares.

Sim, porque os chineses são comunistas, socialistas a sério, que os seus novos camaradas, em princípio, ideologicamente, deviam detestar. Mas eles também são capitalistas, e isso obriga a que parem todas as outras diferenças. Porque, está provado que, onde reina o capital, não há ideias que se discutam.

Gostava de saber como se diz, camarada Mexia, em chinês. Isto porque não acredito que os chineses, nas muitas e longas reuniões de trabalho, ou nas lautas e frequentes refeições que devem saborear em comum, consigam tratá-lo correntemente através do nosso idioma e com o nosso companheirismo.

Igualmente gostava de saber como se diz, camarada Portas, em mandarim. Isto porque não acredito que os altos representantes da R. Popular da China, sejam capazes de vergar a língua até dominar a língua de Camões que o nosso ilustre, competente e económico ministro dos negócios chineses, domina na perfeição.    

Embora haja um ponto de inegável concordância entre os partidos em questão, ambos são mesmo populares no nome, não acredito que sejam capazes de discutir as bases do capitalismo de lá e de cá, as teorias do comunismo e do socialismo que lá há em abundância, enquanto por cá vai escasseando de dia para dia.

É preciso dizer que há uma diferença crucial entre o capitalismo de ambos os estados. O deles é o capitalismo de um estado podre de dinheiro, enquanto o nosso é o capitalismo de um estado podre e teso como um carapau. É essa diferença que faz com que tenhamos, com muita honra e orgulho, muitos novos camaradas.

Ora, tendo em consideração todos estes pressupostos do que há lá e cá não há, está justificado o muito tempo que levam todas as discussões, perdão, todas as transmissões de instruções que o estado de lá, tem a passar para o estado de cá. Os camaradas dos dois lados ainda estão na fase do entendimento por gestos.

Mesmo assim, esse entendimento corre às mil e muitas maravilhas. Haja milhões e toda a gente se entende, sejam eles companheiros ou camaradas. E então, quando o dinheiro corre do camarada para o companheiro, está tudo dito. Agora o que não dá mesmo, é o entendimento entre os companheiros e os camaradas de cá.