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afonsonunes

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05 Nov, 2008

A trela

 

 
Se há coisa que nunca vai mudar é aquele mau hábito que certos seres vivos têm de se deixarem conduzir, visível ou invisivelmente, por um apêndice chamado trela.
No caso do animal de estimação, ela anda muitas vezes enrolada na mão do dono, quando devia ter uma das extremidades presa ao animal. É a eterna mania da prevaricação. Se a lei determinasse que era proibido trazer o animal preso, lá teríamos a trela a desempenhar o fim para que foi criada.
No caso do animal humano, a trela tem outra dimensão e, normalmente, tem a particularidade de ser invisível, pelo menos aos olhos do animal de estimação. Sim, porque essa trela não anda na mão, nem tão pouco se prende ao pé ou ao pescoço. Não se trata de guita, nem de corda ou de pele mais ou menos requintada. Trata-se de um fio cerebral que liga duas mentes com funções bem distintas: a mente que puxa pela trela e a mente que é puxada pela outra extremidade.
É uma espécie de comando à distância que também funciona presencialmente na perfeição, porque há uma sintonia impecável entre quem comanda e o comandado, sem que seja necessário carregar no botão.
Agora até há trelas de estica e encolhe, do tipo dos papagaios de papel, aos quais se dá mais ou menos guita, para lhes aumentar ou reduzir o campo de acção. Isto não significa que papagaios e trelas sejam a mesma coisa, tal como não exclui a possibilidade de que haja papagaios que também estão sujeitos à lei da trela mas, mais precisamente, no que se refere à utilização da língua.   
Todos podemos ver facilmente que anda meio mundo atrelado a gente de ideias fixas e feitas, a protagonistas de factos que já se mostraram calamitosos para a humanidade, a rebocadores de opinião que já encalharam vezes sem conta. Contudo, este pequeno mundo não larga a trela que segura com mão de ferro, para conseguir manter o equilíbrio ao caminhar entre os buracos que se vão abrindo no seu caminho, cada vez mais escabroso e de destino mais incerto.
Por cá também há trelas e atrelados, só que as trelas esticam mais do que encolhem e os atrelados encolhem-se mais do que esticam. Daí que haja uma disfunção congénita que provoca liberdade e clausura ao mesmo tempo.
Todos temos muita liberdade, mas todos vamos ficando cada vez mais reféns das consequências de algumas dessas liberdades. Depois, há quem se queixe que ninguém o protege quando, na verdade, parece estar a pedir que alguém segure na ponta da sua trela, com a condição de nunca encolher um milímetro que seja do máximo que ela dá, mesmo que o perigo fique dentro do raio de acção da trela.