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afonsonunes

afonsonunes

28 Ago, 2012

Ora então é hoje

 

Esta ansiedade está a dar cabo do meu já desequilibrado sistema nervoso. Está a ser muito pior que todo o fim-de-semana em que não me saiu da cabeça a ideia de que o clube da minha simpatia ia ficar em primeiro na tabela classificativa, ou em primeiro depois do outro que, sinceramente, até me tira o sono.

Ansiedade que não fica nada atrás daquela que senti ainda ontem à noite ao ver que aquele desafio nunca mais acabava, nem me tirava aquela vontade de meter a cabeça entre as mãos, tal como me apetece hoje, até começarem a sair as notícias do dia, por troca com as repetições dos dias anteriores que já não suporto. 

Eu detesto ser assim, sem calma para encarar a realidade dos imprevistos, ainda que eles sejam tão previstos como as mais palpáveis evidências. Mas sou como sou e não sou mesmo capaz de me controlar pensando por exemplo, eles que se lixem, porque lixado já eu estou, e não é hoje que vou deixar de o estar.

No entanto, hoje continua a ser o dia do meu desespero, aquele dia em que pergunto a mim próprio por que razão, esta terça-feira, não aconteceu já no sábado ou no domingo, dias em que estava alvoroçado pelos já referidos motivos. Estar desequilibrado por um motivo ou por três motivos é igual.

Depois, também há aquela coisa que me irrita à farta. É o motivo por que vejo que ninguém se preocupa como eu. Parece que esta coisa só me preocupa a mim quando, na verdade, até há muito mais gente que tem muitos mais motivos de preocupação e não deixa de rir e de cantar como se fosse um dia normal de festa.

Tem de haver em mim uma anormalidade qualquer. Então eu vejo-os chegar, sei que se vão meter na minha vida a partir desta terça-feira e não sou capaz de estar calmo e sereno, pelo menos até haver um manguela qualquer que dê uma machadada definitiva nas minhas espectativas? 

Olha, estou a ver, lá vão eles. Levam umas pastas que, não sei a que propósito, me fazem lembrar as maletas dos tosquiadores de carneiros quando se dirigem para a sua faina diária. E, estranhamente, sinto-me mesmo um dos carneiros que vão ser tosquiados com as máquinas que vão dentro das maletas.

É estranho que outros carneiros como eu, não sintam que também vão ser tosquiados. Sim, porque eles não vieram de tão longe para tosquiar apenas um carneiro, pois isso não dava sequer para o petróleo. Até admito que haja carneiros que gostem de ser tosquiados, mas tantos, é coisa que me impressiona.

Já agora, convém não esquecer que os tosquiadores também tosquiam ovelhinhas mansas ou rebeldes, porque todas elas têm lã, de melhor ou pior qualidade. Para eles, ovelhas ou carneiros, vai tudo dar ao mesmo, porque a única coisa que ouvem é um ou outro, mé, mé, quando a máquina roça na pele.

Mas, também me preocupa bastante o facto de não saber por andam os pastores de todos estes rebanhos que vão à tosquia. A não ser que estejam com os tosquiadores, ajudando na recolha da lã que vai caindo no chão, pensando nos milhares de novelos que dali vão sair, sem pensar na maquia que lhes vão cobrar.    

Enquanto desabafei, até parece que esqueci a ansiedade que esta terça-feira me vai continuar a atormentar. Afinal, é hoje que a troika e o governo vão começar, já não apenas a levar nossa lã, mas a esfolar-nos sem dó nem piedade. E depois de nos tirarem a pele, nunca mais nos podem tosquiar.

Para evitar tal calamidade lembro umas coisas que ainda não lembraram a ninguém. Estes tosquiadores gastam um dinheirão em viagens e estadias de tantos em tantos dias. Além disso é uma estafa esta vida de andar para cá e para lá. E levam também uma vida familiar instável que não convém prolongar muito.

Mas, principalmente, provocam em mim esta ansiedade insuportável de os ver chegar e partir sem me dizerem nada. Portanto, sugiro que fiquem por cá, para sempre. Seriam assessores decisores controladores, dos restantes assessores decisores que já temos. Eram só mais três. E muito úteis ao país.