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afonsonunes

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12 Set, 2012

Amaro e Amélia

 

 

Quis o destino que as vidas de Amaro e Amélia se cruzassem num dia distante em que ambos se deixaram embalar nos braços de uma paixão que não podia ver a luz do dia. Mas podia viver e sobreviver no mundo escondido que ambos tinham necessidade de habitar para que pudessem alimentar essa paixão.

Amaro não podia amar Amélia mas amou-a loucamente. Amélia não podia entregar o seu corpo a Amaro mas, sob a aparência de lhe entregar a alma, entregou-se por completo, ficando ambos dependentes de um segredo que, a ser desvendado, a qualquer momento, podia arruinar-lhes a vida.  

Há muito quem viva assim, na dependência de verdades encobertas por mentiras que permitem usufruir de prazer e, por vezes, de pequenas ou grandes glórias, enquanto a vida real não penetra a fundo nas mentiras escondidas. Fui buscar Amaro e Amélia à história de um crime, de um padre e de uma devota, Amélia. 

Este governo que nos catequisa, tem tudo para o compararmos a uma paróquia que tem uma data de padres que fazem homilias de nos fazer sangrar o coração. Depois, secretamente, entregam o seu próprio coração a umas tantas devotas, a que podíamos chamar meninas Amélias.

Já ouvi chamar menina Amélia a muitos homens que, devotadamente, se entregam a quem lhes der o prazer de uma vida boa, ainda que duvidosa ou, deliberadamente, fora dos carris a que a lei obriga, só que têm a promessa de que as leis não foram feitas para eles. Essas meninas Amélias, são dóceis, versáteis e fáceis.

Nesta paróquia, os padres não olham às leis de Deus, embora as invoquem todos os dias nas suas capelas, aos seus fiéis devotos, nem deixam de olhar enlevados para as suas devotas Amélias, a quem deviam incitar ao cumprimento dos mandamentos a que todos deviam estar amarrados.

Padres e meninas Amélias entram então naquele confronto entre a obrigação e a perdição pelo fruto proibido. Eles, pela perdição da carne que lhes está vedada, elas pela excitação que lhes provoca o desejo do que está por debaixo daqueles vestes largas e compridas, fontes inesgotáveis dos mais ardentes desejos mórbidos.

Estas dissertações podem levar alguém a lembrar-se do Crime da Padre Amaro, ou da Rua da Misericórdia, em Lisboa onde, Amélia, depois de uma infância entre padres amorais e velhas beatas, acabou por se entregar ao fascínio da batina, mais que à fé que lhe inspirava o padre Amaro.

Mais tarde, quando parecia estar a caminho da regeneração, depois de ter engravidado, acabou por morrer durante o parto. Longe de mim comparar os meninos Amélias da política, muito menos os do governo, a estas tragédias de tempos tão longínquos, embora promovam e pratiquem, o emprenhe pelos ouvidos.

Quanto aos padres desta paróquia política, que façam uma catequização séria sem emprenhar os seus fiéis devotos e os seus críticos infiéis. Também aqui, pode haver mortes em partos normais, ou até em partos prematuros. E os crimes, agora bastante compensadores, podem vir a tornar-se trágicos, como no romance.