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afonsonunes

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17 Set, 2012

Trágico

 

 

 

Seria trágico para Portugal se o doutor Portas não fosse na conversa do doutor Passos, no que diz respeito à aceitação das medidas, tal como foram anunciadas pelo segundo. Mas também seria trágico se o doutor Passos não levasse por diante essas medidas, apesar de não serem bem vistas pelo doutor Portas.

Trágico, sim, este dilema de uma tragédia de que o país não se livrará de qualquer modo, isto porque há outras tragédias anunciadas, de outros tantos pensadores, que também têm cabeça para pensar. E também pensam que a não concretização do que dizem, será trágico para Portugal.

Em boa verdade, trágico é o facto de haver tantos criadores de tragédias neste país em que nada se pode fazer, ou deixar de fazer, sem que venha alguém a levantar a inevitabilidade de uma tragédia, de cada vez que a sua vontade não está acima de todas as vontades, de todos os seus adversários.

Nesta matéria, o mais trágico de tudo, é que o doutor Portas, com razão ou sem ela, está sempre em posição de colocar a sua tragédia acima da do parceiro de coligação, agora como no passado, em outras coligações. Sendo o parceiro mais fraco, acaba sempre por se tornar naquele que mais força tem.

Sempre que há um braço de ferro importante, no caso, agora com o doutor Passos, não há volta a dar senão este ceder. Sempre também com o argumento de que Portugal está primeiro quando, muitas vezes, quem está primeiro são os seus interesses pessoais e, ou, os do partido que dirige.

Repito, não estou a avaliar em concreto nenhuma tragédia atual. Mas apenas o facto de que o doutor Portas ganha nos braços de ferro, dentro dos governos, o que não consegue ganhar nas urnas, para levar a água ao seu moinho. É só uma questão de esperar pela oportunidade de poder estar do lado que mais o beneficia.

E o doutor Passos, ao colocar-se no lado mais injusto logo, menos popular, colocou-se na trágica posição de recuo, qual inexperiente principiante que acredita que o seu maior peso político, levará o profissional da tragédia a baixar os braços sem condições. Agora, com outras coisas trágicas do seu lado, não se vê Portas a recuar.

Mas, será trágico que não haja alguns recuos de ambos, de modo a que não seja Portugal, a vítima de mais uma tragédia. E essa tragédia não vem, como nos dizem, do facto de termos de cumprir cegamente as visões de meia dúzia de cabeças, mas de cumprirmos na base de alternativas justas sem atropelar os direitos de ninguém.

Contrariamente ao que os trágicos nos martelam aos ouvidos a toda a hora, não são só eles que querem assumir os compromissos do país. Quase todos querem assumi-los, mas sem a corda na garganta que esses trágicos apertam cada vez mais. Porque, por enquanto, também ninguém quer passar a corda para a garganta deles. 

Sem qualquer problema trágico, será necessário e urgente que o doutor Passos e o doutor Portas ponham a escrita em dia e em ordem, de modo que o país saiba se eles se entendem bem, ou se o país tem de pensar em fazer aquilo que os gregos e os italianos tiveram de fazer sem tragédia nenhuma.

No passado sábado começou a maratona das grandes reuniões, com a maior de todas a decorrer em todo o país e ao ar livre. O povo falou como poucas vezes o fez. Agora seguem-se as reuniões, os conselhos nacionais, o conselho de estado, etc. Esperemos que se não caia na tentação das habituais picardias de passa culpas.      

Sempre ouvi dizer que, quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga. A coisa ficaria melhor no plural, mas enfim. Depois, continuem a dizer que nós somos diferentes de tudo e de todos. Diferentes, sim, mas nem sempre no melhor sentido. No entanto, o país sobreviverá sem os trágicos, sem tragédias e… sem comédias.