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afonsonunes

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19 Set, 2012

Nunca mais é sexta

 

Esta angústia já dura há vários dias e ainda só vamos na quarta-feira. É caso para se dizer que esta porca miséria de tantas demoras está a deixar os cidadãos mais ansiosos que no final do dia de sábado passado, dia em que, depois de uma grande estafa nas ruas, ficaram à espera de saber para quê.

Penso eu, que eles estarão convencidos de que na sexta-feira vão ficar a saber, um tanto tarde, embora se diga que mas mais vale tarde que nunca. E ainda falta passar o dia de hoje, a quinta-feira toda e parte do dia de sexta, se acaso a decisão não ficar lá para a madrugada de sábado. Agora são os sábados que estão a dar.   

Já ouvi dizer que um conselho desta natureza, tanto pode durar uma hora, como um dia inteiro. Há lá homens que tanto podem não abrir a boca, como podem ficar a falar até que alguém lhes lembre as horas. Porque, suponho eu, ali ninguém manda calar ninguém, senão acabavam por falar ainda mais.

Afinal, estou a desviar-me do assunto que neste momento mais preocupa os portugueses. E eu estou muito preocupado porque receio bem que toda esta ansiedade e este incómodo modo de estar em pulgas tantos dias seguidos, acabe por dar em águas de bacalhau. Que é passar o dia de sexta e nada.

Já me passou uma coisa pela cabeça que é simplesmente diabólica. Antevi um robot chamado Vítor a explicar uma data de coisas muito complicadas, naquele seu tom de voz lento e super explicadinho, a quem dava vontade de mandar acelerar mas, qual quê, o robot só tinha uma velocidade. Assim, não há sexta que resista.

E também não há povo que aguente, já para não falar no sono que os conselheiros não podem mostrar, embora alguns deles já estejam habituados a disfarçar muito bem. O problema é que depois não vão poder aplaudir o robot, por não terem ouvido, nem percebido, nada daquilo que ele balbuciou.

Mas, altamente preocupante é o facto de o aconselhado correr o risco de também não apanhar sequer a súmula dessa linguagem difícil, apesar de se tratar de uma linguagem muito semelhante à sua. Que é a linguagem dos números, determinante para ver se o sábio vence o robot, ou se cai no enleio do seu torpor.

É evidente que todas estas questões são de uma importância extraordinária, justificando plenamente o estado de sítio em que se encontram as portuguesas e os portugueses. Porque querem a todo o custo que isto vá ao seu sítio, sem terem de perder outro sábado no meio da rua, até porque pode vir aí a chuva.

No entanto, a meteorologia política não prevê mau tempo daqui até sexta-feira. Quando muito, uma ou outra rajada de vento isolada, para hoje e amanhã, nada que obrigue os sócios desavindos a fechar o estaminé. Depois, na sexta, é que é o diabo. Ambos vão estar na mesma sala e ambos vão ter falar.

Provavelmente, com pouco à vontade, um por causa do incómodo da lentidão do robot, o outro devido ao que disse e não devia ter dito, ou quanto ao que não disse e devia ter dito. Quem vai ficar mais baralhado que ninguém é o aconselhado, que terá alguma dificuldade em ouvir bem, tudo o que vão dizer os outros todos.

É verdade que nunca mais é sexta para quem está de fora. Mas a sexta está aí já depois de amanhã, para aqueles que têm uma batata quente entre os dedos. E ela escalda que se farta. E o sábado é logo a seguir, com todo o trauma que já deve ter causado distúrbios muito mal disfarçados a alguns dos conselheiros.

Esta sexta está muito longe de vir a ser o início de um reconfortante fim-de-semana para alguns deles. Mas, como eles próprios costumam dizer, o país está primeiro. Portanto, que ninguém duvide que o trabalho é duro para quem está de fora, mas muito macio para eles. Portanto, onde é que está o problema?