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afonsonunes

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‘E tudo o Vento Levou’ foi como Victor Fleming titulou o seu inesquecível filme de 1939, uma história de amor que o tempo faz reviver a cada momento, a quem o tenha visto. No fundo, o vento tudo leva e tudo traz, porque o tempo lhe dá o privilégio de ter tempo para tudo, enquanto nós não temos tempo para nada.  

Eu diria, e nada o vento deixou, depois das ventanias imprevisíveis para quem ainda há bem poucos dias não se cansava de exaltar as qualidades e as virtudes de um governo que, em poucos meses, restaurou tudo o que estava velho e obsoleto, para nos brindar com um tsunami que devastou o país de um momento para o outro.

E o vento nada deixou de poupanças que ouvimos anunciar diariamente. Nada deixou de uma estabilidade que não resistiu à própria instabilidade dos seus responsáveis. Nada deixou de uma credibilidade que só se tem medido através das línguas compridas que já vão para lá de palmo bem medido.

Em boa verdade, dizendo que o vento nada deixou, diz-se absolutamente tudo. Nem sequer deixou aquela coesão governativa exemplar de dois parceiros que tão bem se entenderam quando souberam criar a divisão que tanto lhes convinha. E hoje, temos divisões tão profundas que não se enxerga como vão ser atenuadas.

A menos que se institucionalize o sistema de governação através de comunicados entre os seus membros, via comunicação social. A menos que o governo passe a funcionar com uma sede nacional em São Bento e uma sede internacional em Pequim ou em Brasília. Cada qual com o seu primeiro-ministro.

E o vento nada deixou aos portugueses que tudo lhe deram. O seu sangue, o seu suor e as suas lágrimas. Em troca, desse governo, que devia ser salvador, receberam a sua ruina, a sua descrença e o sabor amargo de uma desilusão infinita. Que não deixa sequer uma réstia de esperança para sair deste buraco colossal.

E o pior, mas o pior de tudo mesmo, foi conseguir criar as condições favoráveis a que não seja fácil encontrar uma alternativa que o faça esquecer. Porque ele nunca colaboraria nela. Porque quem quisesse colaborar com qualquer outra alternativa, de outros artistas do mesmo circo, estava a cavar o seu próprio buraco.

Porque o país está um buracão do tamanho da península onde está inserido. Nas crises que o país já viveu no passado, nunca a intransigência e o radicalismo partidários foram tão grandes. E aí, não é difícil atribuir a maior fatia à linguagem, à demagogia e ao desprezo com que se mimam os seus adversários.

Porque, ser oposição não é ser parceiro quando se precisa dela. Ser oposição é ter ideias próprias e defendê-las, com sucesso ou não. Mas com legitimidade, sem ter necessariamente de ser irresponsável. Depois, acresce que é preciso ter memória. Quem deu pancada, não pode esperar beijinhos.

A salvação do país nem sempre está do lado de quem governa. E parece ser o caso agora. Quando vemos que nos estão a empurrar para o abismo, não podem esperar que ajudemos. Mesmo que argumentem com a nossa obrigação de ser patriotas, quando está à vista que eles o não estão a ser.

Os compromissos são para ser assumidos, mas na medida em que foram tomados. Compromissos alterados são compromissos rasgados. O país na sua totalidade não pode responsabilizar-se por medidas de um governo que já excedeu todos os compromissos que assumiu no juramento da sua tomada de posse.

Quem semeia ventos colhe tempestades. E este governo, para o ser, abusou dos ventos que tinha a seu favor. Agora, todos os ventos se voltaram com si. É natural. Tal como as dívidas são para pagar, também as maldades não podem ficar no rol dos esquecidos. E tudo o vento levou, ou, e nada o governo nos deixou.  

 

 

      

 

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