Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

afonsonunes

afonsonunes

22 Set, 2012

OUTONO DA VIDA

 

 

Hoje é o dia em que o Verão vai e o Outono vem, numa transição que não dá lugar a festejos nem a manifestações de pesar. Porque sempre foi assim ao longo da existência dos mortais que assistem ao fenómeno, como que passivamente, muitos deles sem se aperceberem sequer do acontecimento, apesar de recordado nos media.

Porque isso é apenas um acontecimento de calendário, embora com influências decisivas nas vidas das pessoas, ou não fossem os equinócios e os solstícios tempos de definição da duração do dia e da noite, ou seja, importantes reguladores de muitas das atividades naturais que, por sua vez, regulam atividades humanas.

Se não for bem assim, que me corrijam os entendidos que eu não me importo. Não tenho nada a ver com os ignorantes que julgam que sabem tudo e têm um medo enorme que se vejam obrigados a recuar quando são apanhados com o pé metido na argola. Sei perfeitamente que todos somos ignorantes, mas nem todos o reconhecem.

Entramos hoje no Outono, o qual determina que o calor se vá e comecemos a sentir um pouco de alívio com algumas brisas frescas a beijar-nos os rostos. E, esperemos que sim, venham uns pingos de chuva reconfortante depois de tantos dias com o sol escaldante a fustigar as gentes sequiosas e os campos ultra ressequidos.

Muita gente também, e simultaneamente, entrou no outono da vida, tempo em que o corpo sente aquela nostalgia do cair das folhas das árvores, ou não fossem as árvores o grande barómetro da vida das pessoas. É o Outono que as despe, ao mesmo tempo que vai desnudando, lentamente, ou de um só golpe, as vidas mais secas pelo tempo.

São muitas as razões que levam cidadãos incontáveis a temer o Outono que hoje começa. As suas vidas estão a passar por um arrefecimento brusco, mesmo brutal em muitos casos, em que o risco de congelação pode significar um adeus à sobrevivência. A congelação ainda não permite o regresso à vida.   

Quem ainda conseguir ultrapassar de pé estes três meses de difícil Outono, entrará naquele que se prevê seja o mais contundente de todos os Invernos. As manifestações gigantescas e as vigílias ao ar livre estão seriamente comprometidas porque as gripes mal curadas e as dificuldades de adquirir vacinas e antibióticos serão fatais.

Quando ouvia falar do fim do SNS e do fim das reformas para os idosos, nunca quis acreditar, até porque logo ouvia alguém dizer que isso eram disparates sem qualificação. Hoje, o convencimento geral é exatamente o contrário. Os disparates, afinal, estão todos a transformar os sonhos em pesadelos e não há já como negá-los. 

Daí que muitos portugueses se vejam no Outono da vida, mal acreditando que consigam chegar ao Inverno onde, muito dificilmente, ainda possam ter esperanças de ver o início da próxima Primavera. Que, como o andar dos tempos nos vai mostrando, estará garantida a muito poucos.

Nestes últimos dias de Verão o país esquentou, ferveu e sonhou, como se tivesse recuperado alguma coisa que julgava ter perdido. O direito à indignação e à esperança. Mas, com este início de Outono o país, prometendo que não volta a adormecer profundamente, volta a sentir que o frio que aí vem, vai trazer muito sofrimento.

 

 

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.