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afonsonunes

afonsonunes

25 Set, 2012

Assim não pode ser

 

 

Como vivemos num país dito democrático (ainda), tem de haver um governo, tem de haver um ou mais partidos que o apoiem e, evidentemente, tem de haver partidos da oposição. Depois, fora daí, cada qual é do que quiser, quer individualmente, quer integrado em organizações ou corporações, sempre à vontade do freguês.

Porém, acontece esta coisa estranha que deve ser inédita em todo o mundo. Em Portugal, já está tudo na oposição. E, estranhamente, ninguém reclama que isto assim não pode ser. Oposição sim, mas nada de abusos. Então é lá admissível que dentro do governo também haja quem esteja contra o próprio governo? Isto é ser oposição, claro!

Logicamente, um governo não é uma fundição, nem pode, nem deve ser, uma fundação, senão mal estaria o governo se ela se auto extinguisse, como está a acontecer àquelas que não estão fundidas, ou confundidas, com o governo e seus amigos e inimigos. Nada disso. Este é um governo de gente bem-intencionada que tem os seus vivos bate papos.

Temos o caso curioso do Conselho de Estado e do presidente. Então pode lá ser que estes, e ex-presidentes, ex-ministros, alguns dos atuais e ex-líderes de partidos, e todos os restantes conselheiros, estejam todos na oposição ao governo? É estranho este procedimento, pois já bem bastam as divergências que este tem lá dentro.

O mesmo se passa com os sindicatos, habitualmente tão agarrados aos governos, sempre na procura de os ensinar a gerir os negócios que também lhes interessam. E aí estão eles, desta vez, todos a fazer oposição cerrada, deixando implícito que, se o país está mal, é por causa de estar a prescindir dos seus preciosos ensinamentos.

Os patrões nunca se tinham visto assim. Tão amigos dos empregados, prometendo pagar-lhes o que o governo lhes quer tirar. Todos, mas todos mesmo, se tornaram oposição firme e determinada contra este governo. Não se percebe. Tantas amizades de séculos desprezadas pelo governo que criou a melhor e a maior das oposições.

O mesmo se passa com os professores e alunos de todos os níveis de ensino, das escolas às universidades, catedráticos de barbas brancas ou doutores de algumas semanas, todos aderentes a uma oposição estratégica de denúncia de um governo que não estuda, que tem ódio a quem estuda e a quem desafiam a ir estudar.

Mas, cuidado, que os militares e os polícias parece que estão com muito mais vontade de estar de olho no governo, que guardá-lo das investidas da oposição. Parece até estarem prontos para ir à frente dela quando se manifestar. No entanto, também sabem que têm de andar a puxar pelo governo quando ele descarrila.   

Já para não falar nos partidos da oposição, que já conseguiram convencer os partidos do poder, a fazerem uma oposição construtiva ao governo. Enfim, podia enumerar os casos mais estranhos que temos vindo a observar. É uma oposição muito mais alargada e muito mais coesa que aquela que qualquer governo sempre quis ter.

Diria mesmo que nos dias que correm o país tem dois terços do governo que constituem a situação, e um terço do governo que se juntou a toda a sociedade na oposição. É, realmente, muita oposição. Se não temos um governo forte, temos uma oposição que nunca foi tão forte ao longo de toda a sua existência na democracia.

Mas, que ninguém confunda oposição com legitimidade do governo. O governo é legítimo porque manda mais que ninguém. E quem manda, manda. E quem não manda obedece. E quem não quiser obedecer leva nas orelhas. Portanto, logicamente, o país tem gente de mais que já devia estar a levar forte e feio nas orelhas.

Bom, que não se pense que sou eu que defendo este procedimento. Nada disso. Lembrei-me dele agora porque tenho um amigo que diz que o governo, mais tarde ou mais cedo, vai ter de prender todos os oposicionistas para poder exercer o seu direito de mandar, perdão, o meu amigo disse governar.

Mas, o meu amigo esqueceu-se de me dizer quem é que prendia a oposição toda, já que ela tem o tamanho do país. Também esqueceu de me dizer se ele faz parte do governo ou se também faz parte desta oposição que ele quer prender. Suponho que ele ainda não pensou bem nisso.

 Estou convencido que o meu amigo também pensa que só ele é que é formiga governamental no meio de tantas cigarras da oposição. Tenho de lhe dizer que assim, como ele quer, não pode ser.