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afonsonunes

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Já só nos faltava que alguém nos metesse à deriva no mar tormentoso que tanto fustigou as velas das naus de Portugal e que Camões tão valorosamente soube cantar. Sim, Camões cantou ‘por mares nunca d’antes navegados’. E ainda hoje ouvimos o seu canto quando pegamos na sua obra imortal: Os Lusíadas.

Também agora temos um poeta que nos mostra a sua canção, mais declamada que cantada, de qualquer forma através de notas nunca dantes ouvidas. Talvez por isso, são muito poucos os que se dispõem a afinar o ouvido, nestas terras lusitanas, ou nos mares onde já nem as velas, agora de cera, conseguem resistir às ventanias.

Os ouvidos vão ficando cada vez mais duros e as velas cada vez mais reduzidas a uns míseros cotos que dentro de momentos não serão mais que as cinzas de um pavio. Nunca mais pensaremos sequer em chegar perto da Taprobana, por mais que haja a ambição de criar um ‘novo reino, que tanto sublimaram’ os atuais descobridores.  

Tudo por culpa dos ventos desfavoráveis que outros nos mandaram e dos ventos favoráveis que foram e estão sendo agora desperdiçados. De nada nos valeram os perigos e guerras fratricidas de ontem e de hoje entre os esforçados portugueses, mais do que permitia a força humana, para alimentar os barões assinalados.

Bem se esforça o poeta que nos encanta agora com as suas tiradas que logo, não se sabe quando, nos irão da lei da morte libertando. Mas, valha-nos a sua fé persistente e o seu inabalável convencimento de que, ‘cantando espalharei por toda a parte’, ‘ se a tanto me ajudar o engenho e arte’. Refere-se ao seu sucesso, obviamente.

Este sucesso assenta nos fortes pilares das suas ‘obras valerosas’, que nada têm a ver com ‘a fama das vitórias que tiveram’ os seus inúteis e irresponsáveis antecessores, a quem se deve a catástrofe da herança que nos deixaram. Por isso, ‘cesse tudo o que a musa antiga canta’, ‘que outro valor mais alto se alevanta’.

Já com o peito cheio de ar vindo do lado do mar da palha, declama com aquela força dos audazes e dos invencíveis, ‘dai-me uma fúria grande e sonorosa’, que alimente a minha fome de régia glória, ‘não de agreste avena ou frauta ruda’, instrumentos que são para os outros que me não gramam, ‘mas de tuba canora e belicosa’.    

Ao Luís de Camões, que lá do alto deve estar a ver as atrocidades aos Lusíadas que meti nestas linhas, peço-lhe que feche o olho e faça de conta que não viu nada de mal neste disparate. Sim, porque eu não fiz nada de mal, penso eu. Mas, se a ministra da justiça o entender, rogo humildemente que não mande proceder a buscas na minha casa.  

Quanto a si, senhor poeta da atualidade, não volte a ‘chatear o Camões’. Não é que ele se importe, mas convém perguntar previamente à ministra se os seus devaneios poéticos não estão abrangidos pelas impunidades que ela baniu. Não falo daquelas que ela protege, obviamente, que essas também são bem conhecidas.  

E pronto. Toca a desfraldar as velas desta nau que está parada há demasiado tempo. Embora não saiba qual o destino que o poeta lhe vai dar agora, eu prefiro ir a nado. Porque anda por aí toda a gente, quase toda, a dizer que já está com o fundo à vista. E no fundo, a verdade é que eu nem sequer sei nadar.

 

 

 

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