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afonsonunes

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29 Set, 2012

A palavra do poder

 

 

A palavra tem realmente muito poder, daí que ela incomode os detentores do poder, como incomoda aqueles que nada mais veem na vida, que a maneira como entendem que ela deve ser utilizada. Para eles, não deve haver outra forma de a palavra servir os interesses dos cidadãos e dos países, que não seja através da palavra do poder.

A palavra do poder, dizem, é a única que une os povos, enquanto o poder da palavra dos cidadãos livres, como forma de expressar diferentes visões das sociedades, só contribui para que se crie uma perniciosa luta de ideologias e de interesses que tudo destrói à sua volta. Porque os assusta o medo de serem eles os destruídos.

Hoje, há quem tenha esquecido já, que a democracia é o melhor dos males. Certamente que, como o melhor dos males, se aceita que ela também é um mal. Mas o melhor de todos os outros. A história confirma-o. As ditaduras vão acabando mal, tanto para os ditadores, como para os milhões de mortes que eles provocam.

Só em democracia os cidadãos podem usufruir do poder da palavra para expressar o que pensam, para rebater o que outros pensam, ou para se defender daqueles que se julgam no direito de pensar pelos outros. Sobretudo, para se defender do excessivo peso das palavras do poder.

Não vai longe o tempo em que se falava muito de medos de falar, de claustrofobias, de dificuldades em exprimir críticas ao poder e outras que tais. Ora a verdade é que aqueles que mais se queixavam dessas tropelias são hoje os que mais as defendem ou as praticam. Para eles, a sua palavra, o poder da sua palavra, passou a ser voz do poder.

Quando a palavra do poder tem a nítida sensação de que está a ser ultrapassada pelo poder da palavra das multidões, tem a tentação de usar meios violentos para a abafar, em lugar de escutar, analisar e conversar para que lhe seja possível demonstrar que a razão está do seu lado. Para que a palavra da razão se junte à razão da palavra.

Não é isso que está a acontecer e o país está a entrar em convulsão perigosa, na medida em que o poder não convence, mas tenta por todos meios, mesmo por alguns ilegais, impor a sua vontade que, nitidamente, em alguns casos, ultrapassa todos os limites dos seus compromissos e dos compromissos que o país tem para com o exterior.

Depois, o país passou de esperançado a desesperado, quando deixou de acreditar na palavra, no conhecimento, na competência e no comportamento de alguns, vários, dos detentores do poder que, nitidamente, além de não o merecerem, constituíram-se declaradamente inimigos da grande maioria daqueles que deviam confiar neles.

Entretanto, já se houve dizer que o país definha, que o país não tem rumo nem estratégia, que o governo está morto. E um país sem governo, nem soluções de governo, é um país à espera do dia do seu funeral. E, pasme-se, a própria família do moribundo não faz nada para dar uma saída à situação.

Até parece que quem representa o país, apenas pensa, sem o dizer abertamente que, nem o pai morre, nem a gente almoça. É uma crueldade, mas também é uma daquelas verdades que não há nenhum poder de palavras, nem palavras do poder, que consigam ressuscitar o moribundo país.  

 

 

 

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