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afonsonunes

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Esta frase leva-me aos já distantes tempos da escola onde comecei a abrir os olhos para o mundo, através dos ensinamentos de um professor muito próximo da idade de reforma, o que lhe dava aquele ar de quem sabia tudo. E ele sabia que a ignorância devia ser discreta, contida e não atirada ao ar a ver se alguém lhe pega.

Quando algum aluno lhe dava uma resposta a demonstrar que não percebia patavina do assunto em questão, o meu professor, com a sua voz meio turva, meio severa, lá desatava a sentença da ordem: a ignorância é sempre atrevida. Atrevida, penso eu ainda hoje, porque ficava muito melhor ao atrevido, ter ficado calado.

Vem isto a propósito de ter ouvido, via TV, a um professor que está muito na berra, ter classificado de ‘completamente ignorantes’, os empresários que se pronunciaram contra a aplicação da polémica proposta governamental da TSU. O ignorante professor foi, ele próprio, completamente ignorante e atrevido ao mesmo tempo.

Portanto, no caso, este professor abusa do alto do seu poleiro para demonstrar como um professor pode ser sempre atrevido. Aliás, quando se diz, sempre, é exatamente porque, volta não volta, lá vem mais um atrevimento ignorante, que deixa o pessoal de boca aberta. Não porque eu seja sabão ao ponto de o corrigir. Nada disso.

Para mim, o problema está na reduzida visão do professor, ao ver apenas a ignorância completa dos empresários, e não ter visto a discreta clarividência de tantos outros protagonistas que se pronunciaram no mesmo sentido dos empresários. Talvez porque considerasse que estes eram ignorantes, mas não completamente.

O próprio chefe do governo, ao recuar como o fez, provou que deixou cair um pouco daquela inteligência tão incensada pelo ignorante professor. Agora, o que ficou evidente mais uma vez, foi o facto de o chefe do governo, com toda a sua inteligência, não ter acertado na escolha de um professor consultor mais instruído e mais modesto.

Consultor incontido que meteu no rol dos ignorantes o próprio Presidente da República que se mostrou frontalmente do lado dos empresários, tendo sido decisiva a sua intervenção, no meu modesto entender, na decisão da medida ter ficado pelo caminho. Portanto, esta notória falta de visão do alcance das palavras de um ignorante, diz tudo.

É por demais evidente que a demonstração da atitude de – a ignorância é sempre atrevida – revela bem como certos ignorantes se arrogam a esperteza de se julgar acima de tudo e de todos, como se a mãe natureza os tivesse feito um prodígio no meio de tamanha mole de ignorantes. Até para atrevimento, isto é demais.

Governo que tem mentores destes, ainda que com o nome de consultores, que se permitem contrariar, ao brindar com o título de ignorantes, as mais gradas figuras do estado e da sociedade, não pode deixar-se afundar por torpedos destes, para lá de outros que já bem lhes chegam para ir pensando na sua vida futura.

Quem tanto tem demonstrado impreparação e falta de modéstia, não precisava de ter ainda um representante da maior ignorância e do maior atrevimento, que tão caros estão a ficar ao país e, sobretudo, aos portugueses. Ter inteligência e boa visão, não chega ter apenas as doses suficientes para alcançar o próprio umbigo.

O Algarve não merecia isto. Outro ignorante afirmou ali que era perigoso não confiar nos políticos. Esqueceu-se de acrescentar, nos políticos como ele, Miguel Relvas. O sabido Pereira disse que o país tinha dois anos de avanço no programa da troika. Porventura, haverá quem pense que a culpa é do sol do Algarve. Ou da gastronomia?

Já que tanto se está a falar em remodelações, um dos temas de topo da atualidade, seria bom que se começasse, antes de mais, pelas modelações de tantas cabeças desmioladas que nos estão a lixar a vida. Depois desta cuidadosa e rigorosa operação, que venham as remodelações, muitas e boas, sem ignorantes e sem atrevidos.

Já me esquecia. Que se lembrem, como eu o faço tantas vezes, daqueles políticos, professores ou não, que tenham idade suficiente para terem a experiência de vida que baste, para nos ensinar qualquer coisa de útil e de diferente da asneira continuada. Porque essa asneira permanente, só me lembra que a ignorância é sempre atrevida.

 

 

 

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