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afonsonunes

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03 Out, 2012

Ressuscitados

 

 Nestes últimos dias temos assistido à presença de figuras públicas na televisão estatal com uma frequência que julgávamos já, salvo seja, mortas e enterradas, dadas as situações em que caíram no passado mais distante ou mais recente. Julgo que isso não acontece por acaso, mas por mais uma daquelas insistências na teimosia do poder.

Depois de largo período longe das cerimónias mais visíveis, tudo levava a crer que o seu reaparecimento estava comprometido pelas reações adversas que o seu aparecimento provocava. Parecia até um ato de bom senso por parte de quem tem que avaliar o que pode favorecer ou prejudicar a imagem do poder perante os cidadãos.

Subitamente, essas figuras públicas ligadas ao poder, voltam a falar como senhores de um prestígio intocável, como representantes de um poder que já os tinha posto de lado, para evitar incómodos. Há qualquer coisa que o poder prepara para surpreender quem se adiantou em comentários e prognósticos que o poder não admite.

Efetivamente, temos um poder que se tornou demasiado teimoso quando vê que alguém está a ser acossado, seja do seu núcleo direto, ou próximo da sua área de proteção. Talvez queira com isso impor uma razão que não tem, ou mostrar uma força que nunca teve. As evidências parecem não esconder fraquezas mal disfarçadas.

Fraquezas que só podem significar que há detentores do poder que estão de tal maneira amarrados uns aos outros que não é possível separá-los, por mais fortes que sejam os motivos para afastar aqueles que estão a comprometer a permanência dos que deviam ter mesmo a obrigação de continuar, mas com outras companhias.

Há personagens que saíram da atividade política pela porta dos fundos, em clara rota de vencidos, por tudo o que não fizeram e por tudo o que disseram e não deviam ter dito. Alguns deles, quando resolveram afastar-se, declararam solenemente que o faziam a título definitivo. Durante meses ou anos ninguém ouviu falar neles. 

Claro que não lhes faltou emprego, nem passaram por dificuldades. Mas faltou-lhes o ‘barulho das luzes’ e o desejo de ouvir o seu nome espalhado por toda a parte, ao verem que, afinal, os seus dotes não são assim tão maus, comparados com os dotes dos que andam na ribalta, pelos melhores ou pelos piores motivos.

Passado o seu tempo de meditação e incorporação de novas competências, que julgaram ter adquirido, começaram a aparecer esporadicamente e a dar umas opiniões na comunicação social, aparentemente, a preparar o regresso com pezinhos de lã. E essas opiniões esporádicas passaram a ser conselhos em programas com dias certos.

Hoje, as televisões estão cheias deles. Fazem críticas severas ou manifestam apoios fervorosos, consoante os destinatários a quem se dirigem. Eu diria que, na maior parte dos casos, consoante os objetivos que perseguem, está sempre o seu próprio futuro no horizonte. Como se nesta nova reincarnação viessem limpar o que sujaram na anterior.

A grande verdade é que os mais famosos, ou os mais obscuros desconhecidos, ainda não conseguiram vencer a lei da morte, ainda que essa morte seja simplesmente confinada à perda dos valores humanos devida às regras ditadas pela consciência no respeito pela sociedade. Depois de morto e enterrado, não mais há ressuscitado.

 

 

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