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afonsonunes

afonsonunes

18 Nov, 2008

A morte a crédito

 

 
Não, não se trata de uma promoção tétrica, ou de um apelo a que morra primeiro e pague depois, mesmo sabendo que hoje já é possível usufruir de todas as facilidades para fazer tudo e não pagar nada. E ainda há quem diga que isto está pela hora da morte.
Tem muito mais lógica dizer que isto nunca esteve tão bom, atendendo a que é bem verdadeiro o slogan publicitário, não sei de quem, que afirma muito seriamente que, ‘você quer, você tem’. É bem de ver que isto era há uns bons dias atrás, pois a minha memória não é capaz de antecipar prognósticos para hoje, nessa matéria tão volátil, como é o binómio débito/crédito.
Fala-se muito de dinheiro vivo, aquele que ainda mexe, e dinheiro morto, que é aquele que ninguém sabe onde foi sepultado, porque se escapuliu para parte mais que incerta, embora toda a gente saiba quem beneficiou com o seu desaparecimento misterioso.
A morte dele, do dinheiro que estava vivo e morreu repentinamente foi, como diz o povo, um ar que lhe deu, assim do jeito de uma compra a crédito, em que se deu como garantia o futuro cadáver do comprador. Que o bom vendedor aceitou na melhor das intenções, ou não estivesse ele ali para vender quanto mais melhor, para receber também, quanto mais melhor de comissão de vendas.
Ninguém pensou que o funeral desse cadáver se realizaria precisamente no mesmo local e no dia e hora, do funeral da dívida da qual se tornara fiador. O próprio coveiro, que consumou o acto final das cerimónias fúnebres, após deitar as últimas pás de terra sobre aquele que fora um cidadão exemplar, vítima de uma conjuntura deplorável, baixou os olhos e rezou um pai-nosso muito sentido pela alma que acabava de subir ao céu.
Essa alma não foi, certamente, para um paraíso fiscal pois, quem manda lá em cima, não aceita garantias de cadáveres que ficaram enterrados cá em baixo. E, segundo dizem os entendidos, até as almas são discriminadas positivamente, ou negativamente, consoante os créditos e os débitos que levam descritos na etiqueta transparente, à qual só o chaveiro pode ter acesso.
Depois de resolvidos os imbróglios que tanto afectam agora os pecadores em geral, lá virá o dia em que vai começar a vender-se uma bula que servirá de passaporte para qualquer paraíso, à escolha do seu titular, sem ter de passar pelo crivo dos bons ou maus pecadores, e sem olhar à ignominiosa classificação de créditos bem parados ou mal parados. Já bem basta o sacrifício de pensar no que falta comprar, mesmo olhando para os sinais interiores dos nossos vizinhos e conhecidos.
Depois, ao comprar a morte a crédito, sem burocracias nem obrigações, acaba-se com o juízo extremamente injusto que fazem os controladores cá de baixo e lá de cima, de fazer umas promessas de dar com uma mão, para depois retirarem com as duas ao mesmo tempo.
Que a terra seja leve a todos os bons e maus pagadores.